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Eduardo Mendes
Eduardo Mendes
Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, ele analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.

BBC e YouTube: a formação do próximo poder criativo da TV ( Parte 3)

O laboratório de capacitação com a NFTS revela nova equação de crescimento: a TV agora depende de cultivar talentos e criar para o fluxo da audiência, e não controlando o meio de distribuição

Na semana passada, a National Film & Television School (NFTS) recebeu Brandon Baumgartner no encerramento do SpringBoard 2026. O criador e empreendedor foi apresentado como o maior artista de efeitos visuais da Europa no YouTube, com mais de 16 milhões de inscritos e 15 bilhões de visualizações acumuladas.

Durante a conversa, Baumgartner detalhou a expansão acelerada do YouTube como plataforma criativa e explicou como cineastas podem trabalhar com marcas e distribuição digital para escalar projetos autorais fora dos circuitos tradicionais.

No ano passado, a BBC já o havia apresentado como um criador de 25 anos à frente de um estúdio próprio de efeitos visuais, com cerca de 30 funcionários, dedicado à produção de universos narrativos de alta complexidade diretamente para o YouTube.

A presença de um YouTuber que se transformou em estúdio próprio de produção roteirizada não é casual para a NFTS. No dia 9 de março, a escola vai ministrar um workshop para 150 profissionais da mídia focado no desenvolvimento de habilidades específicas para atuação no YouTube.

A iniciativa é mais um desdobramento direto da colaboração entre YouTube e BBC. O programa terá foco em três áreas centrais: News, Children & Learning e Digital Content Strategies.

O Creator Incubator, base desse programa, foi apresentado pela primeira vez em agosto do ano passado como um curso de diploma de 12 meses voltado a acelerar a formação de criadores e produtores digitais. Trata-se de um projeto inédito no Reino Unido, totalmente financiado pelo YouTube, e agora integrado à estrutura da BBC.

Essa parceria reforça a provocação feita pela analista Annie Krukowska: a pergunta mais relevante não é se o público considera o YouTube como televisão, mas se a indústria ainda entende qual é a função da TV.

O laboratório de capacitação sinaliza que a colaboração vai além da distribuição. Ela alcança a forma como a liderança na televisão passa a ser exercida.

Após examinar mais de uma dezena de análises sobre o caso BBC e YouTube, considero a de Krukowska a mais precisa por isolar o cerne da transformação.

BBC, YouTube e o teste de Rorschach: o que significa “fazer TV” quando a audiência mudou de lugar

BBC e YouTube: a rendição institucional à plataforma (Parte 2)

O investimento em formação de criadores, desenvolvimento de pipeline e uso do YouTube como rota principal de crescimento reconhece que a construção de audiência não começa mais em plataformas proprietárias. Mirar o fluxo real do público tornou-se tão imprescindível quanto, no passado, projetar para a grade.

Essa parceria não representa uma apropriação de território por uma plataforma, nem um sinal de que a televisão esteja perdendo espaço para o digital. Ela revela uma mudança mais profunda na forma como o valor da TV é criado, distribuído e acumulado ao longo do tempo. Também evidencia o abismo crescente entre como o público encontra conteúdo audiovisual hoje e como a indústria ainda o interpreta.

Para Krukowska, o que está em declínio não é a televisão, mas a lógica herdada da era do planejamento de mídia, baseada em demografia, controle e contenção. Essa visão trata a propriedade intelectual principalmente como um veículo de entrega de anúncios, avaliado por alcance e impressões, e não como um ativo projetado para acumular relevância cultural, lealdade e valor ao longo de múltiplas superfícies.

Andy Marston acrescenta um ponto pragmático a esse debate ao observar que o crescimento futuro da audiência depende da criação de formatos pensados desde a origem para plataformas de terceiros, e não da simples redistribuição de conteúdos concebidos para o broadcast.

Dados do portfólio atual da BBC no YouTube compilados por Paola Marinone e Bengü Atamer  indicam que os canais Top 10 já operam, na prática, como emissoras de nicho especializadas. No conjunto, o BBC Studios soma mais de 175,5 milhões de assinantes globais e cerca de 15 bilhões de visualizações na plataforma.

Nesse contexto, o acordo de conteúdo sob medida marca a transição da BBC da curadoria para a criação nativa para plataformas externas.

Por anos, o YouTube funcionou como um funil de marketing para levar audiência ao iPlayer. Agora, a emissora reconhece que, para as gerações Z e Alpha, a plataforma é o destino final, não a porta de entrada.

Como observam Marinone e Atamer, trata-se de uma “mudança tectônica” para uma emissora centenária. Ou, nas palavras de Krukowska, um teste de estresse sobre o quanto a indústria da televisão compreende o próprio futuro.

O dilema não é se o YouTube é TV, mas se a televisão está preparada para evoluir e seguir o público, em vez de se prender a definições que já não explicam o consumo.