Não tenho a camisa retrô da seleção do Irã. Só tenho de países comunistas da cortina de ferro. Na realidade, eu não tenho, mas é uma boa ideia. Não deixa de ser uma boa ideia. E isso nos leva ao coração do que está acontecendo agora no Irã. Me chama a atenção a pergunta, do que eu estaria sem dó hoje.
Teve um período em que todo mundo estava com a bandeira da Palestina, durante a última guerra. Do dia 3 de janeiro para cá, começou a circular a bandeira da Venezuela. A minha questão é: por que agora não está circulando a bandeira do Irã pré-revolução islâmica?
Por conta do herdeiro do xá, que seria o herdeiro do trono. Mas a minha questão aqui não é se ele deve ou não voltar ao poder. A questão é por que aquilo que está acontecendo hoje no Irã, os massacres, um regime extremamente agressivo e violento, especialmente em relação às mulheres, não levanta a mesma indignação.
Por que esse regime, ao longo desses anos, não desperta a indignação de muita gente que se indigna com relação a outros problemas? Não estou dizendo que os outros problemas não mereçam indignação. O que chama a atenção é que a questão do Irã, ao longo desses anos, não tem recebido o mesmo tipo de indignação gigantesca.
Existe aí um fator que aponta para aquilo que costumo chamar de cegueira cognitiva, ou a impossibilidade de enxergar a realidade quando se tem aderência a algum tipo de ideologia.
A direita no Brasil tende a aderir ao Trump e, portanto, acha que ele é imortal, perfeito para sempre, quando, na realidade, se o Partido Republicano perder as próximas eleições presidenciais, acabou.
Quando aconteceu a Revolução Islâmica de 1979, grande parte da população estava a favor, porque o regime do xá era extremamente violento, agressivo e corrupto. Apesar de hoje o regime do Irã também ser profundamente corrupto, o xá tinha feito uma modernização localizada para a elite, enquanto a população estava muito mal.
Naquela época, figuras importantes, como o filósofo Michel Foucault, entendiam que poderia ser um processo interessante, e muitos outros elementos associados à esquerda pensavam da mesma forma.
A pergunta é: por que hoje não se corre com bandeiras do Irã pré-revolução islâmica? Por que não se dá o mesmo tipo de atenção indignada? Não é que não se fale nada, mas se fala tão pouco. Há tão pouca revolta em relação a um regime que esmaga a população, especialmente as mulheres.
Isso acontece porque, infelizmente, quando há uma adesão ideológica, em especial o horror aos Estados Unidos e ao chamado imperialismo americano, como o regime do Irã é inimigo dos Estados Unidos, aqueles que veem os Estados Unidos como a pior coisa que já existiu acabam assumindo que é aceitável ser amigo do regime islâmico.
Surge então toda a ideia de que o Irã seria um país vítima, quando, na realidade, o governo do Irã tem pisado na cabeça da própria população e agora está matando com força.
