O que era para ser uma negociação madura no mercado acabou virando uma sequência de declarações desencontradas e ruídos públicos que expõem ainda mais a falta de sintonia na cúpula do Corinthians.
Na última semana, uma oferta do Milan pelo volante André — promessa de 19 anos, formado na base e com 24 jogos pelo profissional — parecia encaminhada em cerca de 15 milhões de euros fixos mais bônus que poderiam chegar a 17 milhões totais para o clube. O jogador até teria aceitado os termos com o clube italiano.
Mas aí veio a confusão. O treinador Dorival Júnior, em entrevista após a eliminação para o Novorizontino, deixou claro o desconforto com a possível saída do jovem. Para ele, vender agora seria um sinal de que o Corinthians prioriza caixa em detrimento de projeto esportivo — e que refazer equipe a cada janela não pode ser rotina.
Minutos depois, o executivo de futebol Marcelo Paz tomou o microfone para esclarecer números, precificar a proposta e explicar que o clube precisa equilibrar o orçamento. Explicou, repetiu e justificou, quase como se estivesse falando segundo turno de um processo de negociação que ainda não estava fechado de fato.
No dia seguinte, o presidente Osmar Stábile virou o jogo de vez: decidiu não assinar o contrato nos termos apresentados, alegando que André vale mais do que os valores colocados à mesa e que, em sua visão, o clube deve segurar o jogador.
Se você alinhou tudo isso mentalmente, parabéns — você já entendeu mais da situação do que grande parte dos torcedores que acompanharam as coletivas. Porque, no fim das contas, a sensação que ficou é de que cada um falou uma coisa diferente para públicos diferentes.
Dorival reclamou da falta de clareza sobre o projeto técnico e da necessidade de manter peças que considera essenciais. Marcelo Paz explicou os números como se fosse uma aula de economia para torcedor leigo. E o presidente — aquele que de fato decide — simplesmente jogou água fria em tudo sem conseguir passar uma única narrativa uniforme para imprensa e torcida.
Ruídos assim não acontecem por acaso. Eles revelam ou fragilidades na coordenação interna ou uma dificuldade em articular prioridades entre o que o clube quer do ponto de vista esportivo e o que precisa fazer do ponto de vista financeiro. Em equipes minimamente organizadas, mensagens assim são pensadas, alinhadas e calibradas antes de ir ao público.
No Corinthians, o que se viu foi Dorival expor sua insatisfação, Paz fazer malabarismos para justificar a posição e Stábile — no momento decisivo — tomar a decisão final sem conseguir unificar discurso ou explicar de forma cristalina por que o negócio foi freado.
O problema não é nem a opinião de cada um — isso é natural em qualquer clube. O problema é a incapacidade de comunicar de forma coesa o que realmente está sendo decidido e por quê. Torcedor, imprensa e, sobretudo, elenco acabam pegos no fogo cruzado.
E isso pode ter consequências maiores do que a venda ou não de um jogador. Se o desgaste público entre técnico e diretoria for frequente, a coerência da gestão fica comprometida. E, em última análise, pode ser que nem Dorival nem Marcelo Paz suportem por muito tempo esse ambiente sem uma linha clara de comunicação e propósito.
Enquanto a direção tenta agora extrair um valor maior do Milan por André, quem observa de fora tem a impressão de um clube que ainda não aprendeu a falar com uma só voz — nem quando negocia seus ativos, nem quando precisa passar confiança ao torcedor e ao mercado.
