A Groenlândia passou a ocupar o centro de uma nova tensão diplomática envolvendo os Estados Unidos e a Europa. O tema ganhou destaque após declarações recentes do presidente norte-americano Donald Trump, feitas poucos dias depois dos acontecimentos envolvendo a Venezuela, o que ampliou a percepção, em diferentes capitais europeias, de que a questão pode não se limitar apenas ao campo das ameaças retóricas.
No fim de semana, Trump concedeu uma entrevista à revista The Atlantic na qual reiterou seu desejo de anexar a Groenlândia. O território é autônomo, mas integra o Reino da Dinamarca. Durante a entrevista, Trump afirmou que os Estados Unidos “precisam da Groenlândia” e acrescentou que a União Europeia também precisaria que o território estivesse sob controle norte-americano. Ao justificar sua posição, o presidente mencionou questões de segurança e declarou que a região estaria cercada por navios russos e chineses.
Além da entrevista, outro episódio contribuiu para aumentar a repercussão do tema. A esposa do subchefe de gabinete da Casa Branca publicou uma imagem nas redes sociais mostrando o mapa da Groenlândia coberto pela bandeira dos Estados Unidos, acompanhada da legenda “em breve”. A publicação foi interpretada como um gesto simbólico que reforçou as declarações feitas por Trump.
A Groenlândia, por fazer parte do Reino da Dinamarca, é considerada um território integrante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Esse ponto é destacado por autoridades europeias como um fator relevante, já que qualquer tipo de invasão ou intervenção militar representaria um passo significativamente mais amplo do que as ações recentes dos Estados Unidos em relação à Venezuela.
Diante das declarações, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, se manifestou publicamente e afirmou que Donald Trump precisa interromper as ameaças relacionadas à Groenlândia. Já o primeiro-ministro do território afirmou que a Groenlândia não está à venda. Em resposta à imagem publicada nas redes sociais, ele declarou que o futuro do país não será decidido por meio de postagens e pediu calma à população local.
As manifestações das autoridades dinamarquesas e da Groenlândia receberam rapidamente o apoio de líderes de países nórdicos. Governos da Suécia, da Finlândia e da Noruega expressaram solidariedade às declarações, reforçando a posição de que o status do território não deve ser alterado por pressões externas.
Enquanto isso, o posicionamento institucional da União Europeia tem sido marcado por cautela. Na noite seguinte aos acontecimentos, o serviço diplomático do bloco publicou um comunicado oficial sobre a intervenção norte-americana na Venezuela. O texto foi redigido com atenção à escolha das palavras e ressaltou que os princípios do direito internacional e da Organização das Nações Unidas devem ser respeitados. O comunicado também fez um apelo por calma e por soluções pacíficas, sem mencionar diretamente a Groenlândia.
No contexto das discussões internas da União Europeia, há uma avaliação de que o bloco não busca um confronto direto com Donald Trump. Uma das prioridades dos líderes europeus é a resolução do conflito na Ucrânia. Está prevista, inclusive, uma reunião nesta semana para tratar da segurança da Ucrânia no cenário do pós-guerra, o que influencia a postura adotada pelos países do bloco em relação a outras crises.
Além dos países nórdicos, as manifestações individuais de líderes das principais economias europeias têm evitado críticas diretas aos Estados Unidos. O presidente da França, Emmanuel Macron, publicou uma mensagem nas redes sociais na qual mencionou o nome de Edmundo González como uma possível liderança para um processo de transição, sem fazer referência direta a Donald Trump. Já o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou que a legalidade das ações dos Estados Unidos é uma questão complexa, indicando a existência de cuidados na forma como o tema é tratado publicamente.
Esse conjunto de declarações reflete a preocupação das lideranças europeias em manter uma linguagem moderada ao abordar as falas de Trump, especialmente quando envolvem temas sensíveis como soberania territorial, segurança internacional e alianças militares. A situação envolvendo a Groenlândia, nesse contexto, permanece acompanhada de perto por governos europeus e pelas instituições da União Europeia, enquanto os desdobramentos diplomáticos seguem em curso.
