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Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé
Filósofo de destaque, professor universitário e autor de diversos livros, Pondé é conhecido por suas análises ácidas e reflexões profundas sobre a cultura, a sociedade contemporânea e a existência humana. A coluna Sem Dó oferece uma visão crítica e sem concessões sobre os temas do cotidiano, provocando o ouvinte a pensar para além do senso comum.

Direita, esquerda e Venezuela: direitos humanos sob disputa ideológica no debate internacional

No debate sobre a Venezuela, direita e esquerda mobilizam o discurso dos direitos humanos a partir de interesses ideológicos e das possíveis consequências geopolíticas das ações dos Estados Unidos

O tema da Venezuela tende a permanecer no centro do debate por bastante tempo. Não se trata apenas da situação venezuelana em si, mas de uma preocupação que se estende para além da América Latina, alcançando também a Europa e o cenário geopolítico internacional. Nesse contexto, chama atenção a forma como diferentes campos ideológicos se posicionam quando o assunto envolve direitos humanos no país governado por Nicolás Maduro.

A avaliação apresentada é direta: há pouca razão para acreditar que setores à direita ou à esquerda estejam, de fato, genuinamente preocupados com os direitos humanos na Venezuela. Essa constatação não se restringe ao Brasil, embora o debate nacional seja um reflexo claro desse fenômeno. A análise dos resultados práticos das ações recentes dos Estados Unidos, especialmente sob a condução de Donald Trump, só poderá ser feita com o passar do tempo. Será necessário observar se, no futuro, essas iniciativas terão algum impacto concreto na melhoria das condições de vida da população venezuelana.

No momento atual, a impressão é de que as preocupações centrais dos Estados Unidos não estão diretamente ligadas ao bem-estar da população ou à democracia no país. O foco parece estar em interesses específicos, como o petróleo e o combate ao narcotráfico, que é reconhecido como um problema real. Ainda assim, setores da direita tendem a apoiar automaticamente qualquer ação tomada por Trump. Caso surja algo que se aproxime de um alinhamento estratégico com o chavismo, ainda que sob outra roupagem, isso pode ser visto como positivo por parte da direita brasileira, desde que envolva a contenção de influências chinesas, russas ou iranianas.

Do outro lado, a esquerda também reage de forma previsível. Embora critique a ilegalidade de uma eventual intervenção sob o ponto de vista do direito internacional, parte significativa da esquerda brasileira — incluindo declarações passadas do presidente Lula — manteve proximidade com o governo Maduro. Mesmo que de forma mais contida nos últimos tempos, essa relação permanece como referência. Nas redes sociais, surgiram manifestações e memes em defesa de Maduro, sustentando o argumento de que ele é o presidente legítimo, ainda que existam questionamentos sobre fraudes eleitorais.

Nesse momento do debate, aspectos como a violência do regime, a corrupção, a repressão à oposição, o êxodo de milhões de venezuelanos e a miséria que atinge o país acabam relativizados. Esses elementos, amplamente conhecidos, deixam de importar quando a análise é feita a partir de um alinhamento ideológico. Para muitos, o fato de Maduro se apresentar como um líder de esquerda, bolivariano e socialista, se sobrepõe a qualquer outra consideração. Desde o governo Chávez, diversos apoiadores brasileiros enxergaram a Venezuela como uma possível nova Cuba e chegaram a se envolver diretamente com o governo local.

É nesse ponto que a discussão sobre direitos humanos passa a parecer instrumentalizada. Não se questiona a relevância do tema em si, mas o uso seletivo que se faz dele. Ao final, tanto a direita quanto a esquerda observam os acontecimentos a partir de seus próprios referenciais ideológicos. Essa adesão ideológica, conforme destacado, compromete a capacidade de análise e gera uma perda cognitiva, na medida em que limita a compreensão da realidade.

Ao trazer o debate para o campo da filosofia política, surge a referência a Maquiavel. Em “O Príncipe”, o pensador argumenta que ações duras ou traumáticas podem ser justificadas se, no futuro, produzirem resultados positivos. A legitimidade de um ato estaria, portanto, vinculada às suas consequências. Exemplos históricos como o Iraque e o Afeganistão mostram situações em que essa lógica não se confirmou, já que as intervenções não resultaram em estabilidade ou melhoria duradoura.

No caso venezuelano, a avaliação dependerá do que ocorrer nos próximos anos. Se houver melhora nas condições econômicas, retomada da atuação da mídia de oposição, fim da repressão política e redução do fluxo migratório provocado pela miséria e pela ditadura, será possível interpretar as ações atuais como algo que produziu um resultado político positivo. Nesse sentido, a filosofia moral que avalia atos a partir de suas consequências — conhecida como consequencialismo — ajuda a enquadrar essa discussão.

A geopolítica, por sua vez, opera historicamente a partir de interesses pragmáticos das grandes potências. Organismos internacionais como a ONU enfrentam limitações evidentes, seja pela falta de poder efetivo, seja por disputas ideológicas internas. Nesse cenário, decisões acabam sendo moldadas por interesses estratégicos e não necessariamente por princípios universais.

No momento, a percepção predominante é que Donald Trump não demonstra preocupação central com a democracia venezuelana. Seus interesses parecem concentrados na abertura do mercado de petróleo e no combate ao narcotráfico, ainda que isso implique acordos com o status quo em nome da estabilidade. O próprio discurso de que seria necessário “consertar” a Venezuela antes de realizar eleições reforça essa lógica.

Diante disso, a conclusão permanece em aberto. A conta ainda não fecha. Somente com o tempo será possível avaliar os efeitos reais dessas ações. Até lá, a recomendação permanece atual: a leitura de “O Príncipe”, de Maquiavel, segue sendo uma ferramenta útil para compreender não apenas o cenário político contemporâneo, mas as dinâmicas do poder ao longo da história.