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Joana Treptow
Joana Treptow
Destaque pelo estilo espontâneo na apresentação jornalística, Joana Treptow teve passagem pela TV Bandeirantes, onde começou a atuar como repórter de TV e, em seguida, passou a integrar o elenco de âncoras do veículo, além de produzir reportagens especiais.

Em um país onde infâncias são violadas, a rede de proteção precisa ir além da casa

Um homem de 60 anos. Casado. Com dois filhos adultos. Piloto de avião – uma profissão que tem prestígio. O profissional precisa ser responsável, ter rigor técnico, disciplina, equilíbrio emocional.

Na régua das características que costumamos associar a abusadores, ele estaria do lado oposto. Do lado “seguro”. Estaria – erroneamente. Sérgio Antonio Lopes – ex-piloto da Latam, preso nesta semana – se escondia atrás dessa aparência de homem confiável para operar um esquema de exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes.

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As informações às quais tivemos acesso são tão difíceis de ler quanto de escrever. É o tipo de coisa que nos faz perder a esperança na humanidade. O abusador “comprava” os estupros. O que se descobriu até agora foram pagamentos à avó de três das vítimas, ao menos, em pix, cestas básicas, boletos de aluguel. Os crimes aconteciam há anos. E não havia ninguém para salvar as vítimas porque elas estavam sendo exploradas pelas próprias famílias. Dentro das próprias casas. Essas meninas não sabem o que é ter proteção e nem o que é ter um lugar seguro.

A descoberta desse esquema e prisão do abusador cessou um ciclo de sofrimento, angústia, tristeza – o que permite, não sei exatamente como – que respiremos minimamente aliviados. Minimamente porque, por um lado, sabemos que os crimes não vão mais ser cometidos, mas por outro, também sabemos não há ferramentas jurídicas que reparem o tamanho do trauma na vida dessas meninas.

Em um país onde mais de 100 crianças sofrem violência sexual por dia, precisamos falar sobre todas as formas pelas quais esses crimes acontecem. Neste caso, estamos falando de crianças que eram vendidas. Sim, vendidas. E aqui não cabe o discurso de “alerta às famílias”, porque, neste caso, eram justamente os responsáveis que faziam parte do esquema.

É uma situação em que a violência sexual tem caráter estrutural e a rede de proteção precisa ir além da casa. É um exemplo claro para quem não se preocupa com este assunto porque, por exemplo, não tem filhos e acha que o problema não lhe diz respeito.

Em um país onde infâncias são violadas sistematicamente, ninguém pode se considerar fora do problema. Quando a família falha – ou, pior, quando participa – a responsabilidade deixa de ser do âmbito privado. Passa a ser coletiva. Escola, vizinhos, profissionais de saúde, assistência social, lideranças comunitárias, colegas de trabalho. Qualquer adulto pode ser a única chance de uma criança ser percebida.

Leia mais: O que se sabe sobre a prisão de piloto da Latam acusado de manter rede de abuso infantil

Todo cuidado e atenção ainda são pouco. Porque não há como saber quem são as vítimas – elas não andam identificadas. Da mesma forma, não há como saber quem são os monstros que se escondem atrás de profissões respeitáveis, sobrenomes conhecidos ou da imagem de “homem de família”. Talvez a parte mais difícil seja aceitar isso: eles parecem normais.

Não têm aparência ameaçadora. Não vivem à margem. Circulam normalmente, socialmente. Trabalham. Têm família. São bem recomendados. Não estamos falando de monstros escondidos no escuro. Estamos falando de homens que passam despercebidos. E talvez o primeiro passo seja parar de procurar o perigo onde ele aparenta estar, e começar a admitir que ele pode estar onde a gente menos quer enxergar.