Vivemos um período de transição em que uma velha ordem internacional se encerrou, enquanto uma nova ainda não se apresentou de forma clara. Nesse intervalo, há atores que buscam desenhar os contornos do que virá, e o mundo observa para entender como reagirá a esse movimento. Na Europa, a percepção dominante é de incerteza. A pergunta que circula é direta: seremos os próximos?
Essa dúvida está relacionada, sobretudo, à possibilidade de perdas territoriais. A preocupação envolve áreas como a Groenlândia e a Ucrânia, em diferentes extremidades do continente. Trata-se de uma apreensão concreta, mas que não se limita apenas à questão geográfica.
Durante décadas, a Europa estruturou sua história recente, seus orçamentos e sua organização social com base em um pressuposto central: a segurança era garantida por uma aliança com os Estados Unidos. Esse arranjo ofereceu ao continente um nível de proteção que nunca havia sido experimentado ao longo de sua história marcada por conflitos constantes.
A história europeia é atravessada por guerras, visíveis em cidades, monumentos e memórias coletivas. Esse ciclo foi interrompido a partir de 1945. Hoje, no entanto, a inquietação retorna. Um jornal alemão chegou a estampar em sua capa a pergunta sobre a necessidade de uma bomba nuclear. O simples fato de a Alemanha formular essa questão é visto como um sinal de gravidade.
O cenário atual na Europa é de preocupação com o enfraquecimento da aliança com os Estados Unidos, com a ameaça russa e com a possibilidade de perda de espaço no cenário internacional. Em um mundo frequentemente descrito como digital e virtual, a disputa por recursos naturais e por território volta a ocupar posição central. Para que a tecnologia exista, a terra e os recursos seguem sendo estratégicos.
Uma geração cresceu sob a influência do eurocentrismo, da democracia liberal e dos valores da social-democracia, especialmente no ambiente universitário. Esse modelo, discutido intensamente nos últimos anos, dá sinais de esgotamento. Há indícios de que esse processo não é recente, mas ainda não está claro o que o substituirá.
O projeto da União Europeia nasceu como um projeto de paz, voltado a encerrar guerras entre países do continente e a construir um Estado de bem-estar social capaz de promover paz social. Ao longo da segunda metade do século XX, esse modelo apresentou resultados, com integração regional e políticas sociais amplas. No entanto, esse ciclo se encontra esgotado.
O desmonte desse arranjo traz consequências amplas. Ao não investir fortemente em defesa militar, a Europa direcionou recursos para programas sociais internos e iniciativas globais, como ações ambientais. Caso esses recursos passem a ser redirecionados para gastos militares, programas sociais em diversas partes do mundo poderão enfrentar escassez. O impacto, portanto, ultrapassa as fronteiras europeias, em um contexto em que o futuro permanece indefinido.
