Em 2013, foi lançado o filme Her, que chegou ao Brasil com o título “Ela”. Na história, protagonizada por Joaquin Phoenix, o personagem compra um sistema operacional baseado em inteligência artificial, com a voz de Scarlett Johansson. Aos poucos, aquela IA deixa de ser apenas uma assistente e passa a ocupar um espaço afetivo na vida dele, até que os dois desenvolvem um relacionamento amoroso.
Agora, em 2026, uma das notícias da semana mostra que a realidade está cada vez mais próxima da ficção. A China decidiu proibir os chamados “namorados virtuais” criados por inteligência artificial, numa tentativa de reduzir a dependência emocional dos usuários.
Quando a medida entrou em vigor e as empresas de tecnologia desligaram esses sistemas, muitos usuários recorreram às redes sociais para relatar o impacto. Alguns disseram que a interrupção foi abrupta e muito triste, como se seus companheiros simplesmente tivessem desaparecido. Outros foram além, afirmando que o amor entre pessoas se tornou algo cada vez mais raro e escasso.
Sinceramente, interpreto essa notícia como algo que está longe de ser estranho ou excepcional. Na verdade, esse fenômeno é muito mais comum do que parece. A inteligência artificial evoluiu não apenas na capacidade de raciocínio. Ela também avançou de forma significativa na comunicação. Já não estamos falando apenas de chatbots que trocam mensagens por texto. Hoje, a IA conversa com fluidez, utiliza voz natural, gera vídeo e até participa de chamadas em tempo real.
Some-se a isso a capacidade de compreender os interesses de cada usuário. Assim como os aplicativos de música criam playlists personalizadas e o YouTube aprende seus hábitos para recomendar conteúdos cada vez mais alinhados às suas preferências, essas inteligências artificiais também aprendem como agradar quem está do outro lado da conversa.
Os chamados namorados virtuais tendem a gerar menos atritos, discordam menos e procuram oferecer respostas que agradem continuamente o usuário. Isso torna a experiência emocionalmente confortável e altamente personalizada.
No fim das contas, esse fenômeno diz menos sobre a evolução da inteligência artificial e muito mais sobre o funcionamento da sociedade e o comportamento das pessoas diante da tecnologia. A IA apenas potencializa uma necessidade humana que já existia: a busca por conexão, atenção e validação. O que mudou é que, agora, essa conexão pode ser oferecida por algoritmos cada vez mais sofisticados.