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Igor Rocha
Igor Rocha
Economista-chefe da Fiesp com profundo conhecimento em macroeconomia, setor industrial e políticas públicas, Igor Rocha traz a visão do setor produtivo. Ele analisa o cenário econômico no Brasil e no exterior com foco nos indicadores, nas políticas monetárias e fiscais, e no impacto desses fatores para a indústria e o cidadão brasileiro.

Impacto da nova faixa de isenção do IR e o desafio do BC para cumprir a meta de inflação

Medida que libera imposto para quem ganha até R$ 5 mil cria expectativa de impulso ao PIB

O debate sobre a nova faixa de isenção do imposto de renda ganhou força porque afeta diretamente milhões de trabalhadores. Para quem recebe até cinco mil reais, a mudança representa algum alívio no orçamento, ainda que não seja amplo. A sanção presidencial deve ocorrer em breve, e a expectativa é que a alteração tenha reflexos mensuráveis na atividade econômica do próximo ano.

As projeções para o crescimento de 2026 estão atualmente entre 1,9% e 2%. Para 2025, a estimativa é de um avanço próximo a 2,5%. O cenário para o ano seguinte, porém, inclui fatores que podem alterar essa trajetória. Entre eles, a expansão fiscal dos três níveis de governo — federal, estadual e municipal — em um período marcado pelo ciclo eleitoral, algo já observado em anos semelhantes. Outra variável considerada relevante é justamente a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais, que tende a ampliar o poder de compra de uma parcela significativa da população.

Cálculos recentes elaborados por economistas estimam que o impacto da nova isenção sobre o PIB de 2026 fique entre 0,2 e 0,5 ponto percentual. As projeções mais centrais têm apontado para cerca de 0,3 ponto percentual de viés positivo, resultado da liberação de renda que deve se refletir no consumo das famílias.

Ao mesmo tempo, a política monetária permanece em foco. No início da semana, o presidente do Banco Central afirmou que ainda não considera satisfatório o comportamento da inflação no país e indicou a manutenção da taxa básica de juros em 15% ao ano. A meta estabelecida para a inflação é de 3%. A avaliação atual é de que essa meta não será alcançada nem neste ano nem em 2026, com possibilidade de aproximação apenas em 2027. Essa é a razão central da postura cautelosa adotada pela autoridade monetária.

A responsabilidade formal do Banco Central é perseguir a meta estabelecida. A ferramenta utilizada para isso é a taxa básica de juros. Quando a meta não é cumprida, o presidente da instituição precisa enviar uma carta explicando os motivos. Isso já ocorreu no passado. Para este ano, a expectativa é de que a inflação fique dentro do teto da banda, em 4,5%, o que dispensaria essa comunicação formal. Mesmo assim, o desafio permanece, já que o centro da meta é considerado exigente para um país emergente, apesar de existir como referência em outras economias da região.

Há também um componente institucional na discussão sobre eventuais mudanças na meta. Sempre que surge a possibilidade de alterar o centro da banda, há reação por parte do mercado. A interpretação predominante é a de que uma mudança desse tipo sinalizaria menor compromisso com o controle da inflação, o que poderia gerar instabilidade no curto prazo. Mesmo sendo uma meta considerada ambiciosa, a avaliação predominante é a de que alterá-la agora teria efeitos negativos tanto para o governo quanto para o próprio Banco Central.

Outro ponto relevante é a diferença entre a taxa Selic e o juro de longo prazo utilizado como referência pelo sistema financeiro. Frequentemente há confusão entre essas duas medidas. Bancos e instituições levam em conta a curva futura de juros, que aponta custos projetados para prazos como cinco, dez ou quinze anos. Essa taxa tem recuado quando comparada ao final de 2024, mesmo com a Selic em patamar elevado. É esse juro futuro que influencia o crédito ofertado a empresas e pessoas físicas.

Em relação ao início de um possível ciclo de cortes, as estimativas do mercado variam entre janeiro e março. Há instituições que consideram a possibilidade de redução já no primeiro mês do ano, enquanto outras trabalham com um cenário mais provável a partir de março. O ritmo inicial, caso se confirme, deve ser de 0,25 ponto percentual.

A combinação entre expansão fiscal em ano eleitoral, liberação de renda com a nova faixa de isenção e expectativa de queda nos juros ao longo de 2026 compõe um ambiente no qual o crescimento pode superar o atual intervalo projetado. As variáveis, porém, dependem da manutenção da trajetória de desaceleração da inflação e da leitura que o Banco Central fará dos próximos indicadores. O resultado dessas decisões terá papel determinante na atividade econômica do país nos dois próximos anos.