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Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé
Filósofo de destaque, professor universitário e autor de diversos livros, Pondé é conhecido por suas análises ácidas e reflexões profundas sobre a cultura, a sociedade contemporânea e a existência humana. A coluna Sem Dó oferece uma visão crítica e sem concessões sobre os temas do cotidiano, provocando o ouvinte a pensar para além do senso comum.

Infantilização, felicidade prometida e polarização: notas sobre o adulto no Brasil atual

A ideia de infantilização aparece associada a um modelo de sociedade que toma a Disney como paradigma. Trata-se de uma busca permanente por felicidade que, segundo essa leitura, vai tornando as pessoas cada vez mais simplificadas na forma de lidar com a realidade. Nesse contexto, surge a referência a Freud, psicanalista austríaco, que aponta a dificuldade de viver segundo o princípio da realidade. O mais fácil, segundo ele, é viver orientado pelo princípio do prazer. A discussão é extensa e complexa, mas pode ser resumida na oposição entre essas duas formas de relação com a vida.

Alcançar o princípio da realidade, aceitar a vida adulta, implica admitir o que tem sido chamado de um mal-estar estrutural da condição adulta. Os desejos não se realizam plenamente e, quando se realizam, já não produzem o mesmo efeito esperado. Há a ideia de que o desejo pode humilhar duas vezes: ao não permitir sua realização e, depois, ao permitir, mas esvaziar o valor do objeto desejado. Freud chama atenção para o fato de que a condição adulta exige lidar com esse mal-estar constante e que a felicidade, nesse sentido, é sempre episódica.

Quando se observa o sistema capitalista, sem distinção entre esquerda e direita, aparece uma promessa recorrente de felicidade. Essa promessa se vincula diretamente ao marketing, que sustenta a ideia de que qualquer pessoa pode se reinventar, ser quem quiser e alcançar tudo o que deseja. Nesse ponto, esquerda e direita se encontram ao aceitar e reproduzir esse discurso de possibilidades ilimitadas, no qual tudo parece estar ao alcance das mãos e tudo tende a dar certo.

Essa lógica é descrita como um processo de infantilização. O capitalismo necessitaria de uma condição infantil para estimular o consumo contínuo, fazendo com que as pessoas desejem comprar cada vez mais e acreditem nos modelos de vida que lhes são apresentados. É nesse sentido que a infantilização se estabelece como um paradigma, moldando expectativas e formas de interpretação da realidade.

No caso brasileiro, essa infantilização aparece associada à ideia de viver em um “castelo da Disney”, entendendo a vida como um espaço de felicidade plena, onde o outro deixa de existir como sujeito legítimo. O outro passa a ser visto como a encarnação do mal, o que ajuda a explicar a polarização política marcada por uma divisão rígida entre campos opostos. De um lado, acredita-se que o próprio líder representa o bem absoluto; de outro, que o líder adversário representa o mal absoluto. Esse processo é descrito como um empobrecimento que se relaciona diretamente com a infantilização.

A polarização não apenas se alimenta de uma pobreza cognitiva e de conhecimento da realidade, mas também retroalimenta essa condição. As pessoas ficam presas a frases, palavras e visões de mundo repetidas em suas bolhas, empobrecendo o repertório linguístico e conceitual. Quando as palavras e o repertório se empobrecem, torna-se mais difícil lidar com contradições, o que reforça uma postura infantil diante do mundo.

Nesse ponto, surge a lembrança da filosofia existencialista francesa, associada a nomes como Sartre e Simone de Beauvoir, e à ideia de que “o inferno são os outros”. Conviver com o outro dentro de um contrato social exige maturidade, pois implica negociar diferenças dentro do espaço da lei e do Estado de direito. Essa convivência é difícil e causa sofrimento, mas é uma exigência da vida adulta.

A infantilização dificulta esse processo ao produzir uma visão simplificada da realidade, estruturada na oposição entre bem e mal. Nessa lógica, o sujeito se coloca como representante do bem, enquanto o outro é automaticamente associado ao mal. A polarização se alimenta dessa visão e, ao mesmo tempo, a reforça. Diante do cenário atual, torna-se difícil enxergar soluções claras no horizonte, embora se mencione a possibilidade prática de surgirem alternativas políticas fora dos polos tradicionais da esquerda e da extrema direita.

A dificuldade prática está em como conviver com pessoas que reconhecem esse processo, mas não se dispõem a alterá-lo. Surge a analogia do trânsito, em que o motorista que pressiona os outros representa um risco maior para terceiros do que para si mesmo. O trânsito é descrito como um exercício contínuo de civilização, no qual não é possível simplesmente ignorar o outro, mas também não se pode detê-lo à força.

A orientação apresentada é evitar ser arrastado pela polarização. Esse fenômeno atinge inclusive pessoas com alta formação acadêmica. Indivíduos com doutorado podem reproduzir práticas polarizadas no cotidiano, como ocorre em ambientes universitários. Há situações em que professores recusam projetos de pesquisa não por desconhecimento técnico apenas, mas por associarem determinados autores a valores políticos com os quais não concordam. Esse tipo de prática é descrito como recorrente e atinge setores da produção de conhecimento, grupos artísticos, aparelhos culturais e o próprio jornalismo.

Nesse sentido, a polarização é comparada ao fanatismo religioso. Não se trata de religião em si, mas de uma forma de pensamento que impede a autocrítica e a convivência com a contradição interna. Assim como o fanatismo religioso, a polarização funciona como uma condição de pensamento fechada, que limita a capacidade de compreender a complexidade da realidade.

A forma de lidar com esse fenômeno é descrita como semelhante ao enfrentamento do fanatismo: denunciar, desmontar argumentos e expor os efeitos que produzem. Exemplos incluem situações em que alunos deixam de encontrar espaço acadêmico para desenvolver pesquisas por não se alinharem a determinados referenciais teóricos dominantes, sendo estigmatizados e privados de oportunidades. Esses episódios são apresentados como parte concreta dos efeitos da polarização no cotidiano institucional.