Joana Treptow
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Âncora de destaque no jornalismo nacional, Joana Treptow, com seu estilo espontâneo, traz uma visão humana e técnica sobre os fatos que moldam o cotidiano. Versátil e dinâmica, sua cobertura abrange desde grandes crises até tendências sociais e culturais.

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O poder de controlar o que pode ser visto

Do Oriente Médio ao Brasil, o mesmo dilema: até onde vai o poder sobre a informação?

Por Joana Treptow | Atualizado em
Retrato translúcido e desfocado de mulher
(Foto: Freepik)

Quarenta e cinco foram presas em Dubai por compartilhar vídeos de ataques iranianos. Não por desinformação, mas por divulgar os bombardeios.

Entre os acusados está um turista britânico de 60 anos. Todos podem ser enquadrados na lei de cibercrimes dos Emirados Árabes Unidos, que prevê prisão para quem divulgar conteúdos considerados prejudiciais à segurança pública ou à imagem do país.

A legislação inclui conceitos amplos — como conteúdos que possam “provocar alarme social” — e a aplicação depende da interpretação das autoridades.

Em momentos de crise ou conflito, quando a própria lei prevê agravamento das punições, essa margem interpretativa tende a se ampliar. Nesses contextos, a fronteira entre informar e violar a lei passa a depender menos da conduta em si e mais da leitura do Estado sobre ela.

O caso lembra discussões recentes no Brasil.

Na semana passada, uma operação contra um jornalista maranhense investigado por suposta perseguição ao ministro Flávio Dino reacendeu o debate sobre os limites entre segurança institucional e atividade jornalística. A investigação envolve reportagens nas quais ele teria tido acesso a informações consideradas sensíveis pela segurança da autoridade.

Para as autoridades, esse acesso poderia representar um risco. O jornalista diz que se trata de material registrado no exercício da profissão e questiona as medidas.

Não é um debate simples. Estados têm o dever de proteger a segurança. A sociedade tem o direito de informar e de saber o que acontece.

A dificuldade começa quando não fica claro onde termina uma coisa e começa a outra.

Hoje, qualquer pessoa registra acontecimentos com o celular. Jornalismo profissional é outra coisa – envolve método, responsabilidade e contexto. Mas o dilema institucional que aparece nos dois casos é semelhante: quem define o limite do que pode ser mostrado?

Esse debate se torna ainda mais sensível em um momento em que a própria ideia de verdade está em disputa.

Vivemos na era da pós-verdade, em que fatos competem com versões e narrativas. Nesse ambiente, imagens muitas vezes foram vistas como uma forma de prova da realidade.

Mas o que acontece quando até mostrar os fatos passa a ser um risco? Quando o problema deixa de ser apenas o que é falso e passa a incluir também o que pode ser considerado inconveniente?

Já é difícil saber em quem acreditar. Limitar o que pode ser mostrado não resolve o problema da desinformação. Cria outro: a dúvida sobre a própria realidade.

Isso se agrava quando registrar fatos passa a ser visto como ameaça e as pessoas começam a se conter. O controle da informação nem sempre acontece pela censura. Às vezes é pelo medo.

Especialistas chamam isso de efeito inibidor: quando o receio de punição já basta para reduzir o que se diz, se mostra ou se investiga.

No fim, fica a pergunta: o que acontece com a verdade quando registrar a realidade passa a ter um custo?

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