A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) encontra-se, neste momento, em uma de suas encruzilhadas mais delicadas e decisivas das últimas décadas. Nas últimas horas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou a aliança militar contra a parede com uma ameaça clara: ou a Otan atua ao lado de Washington para reabrir o Estreito de Ormuz, no Oriente Médio, ou a aliança terá “um futuro muito ruim”.
A declaração não é apenas uma bravata retórica; é uma imposição que chacoalha as bases da relação transatlântica. O que Trump desenha é um cenário binário. Ou a Otan entra em um conflito que não é originalmente seu, ou o pilar de segurança do Ocidente corre o risco de perder o apoio e o envolvimento de seu membro mais poderoso.
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A pressão absoluta de Washington esbarra em uma resistência quase estrutural do Velho Continente. Para os líderes europeus, a exigência americana é problemática por dois motivos centrais. Primeiro, argumentam que esta não é uma guerra iniciada pela Europa. Segundo, e do ponto de vista legal e estratégico, a Otan não possui um mandato claro para atuar militarmente no Oriente Médio. A aliança foi forjada para a defesa do território europeu e norte-americano, e não para intervir em rotas comerciais no Golfo Pérsico.
Diante do ultimato, a Europa tenta ganhar tempo e buscar alternativas. Há uma orquestração em andamento para evitar o pior. O primeiro-ministro britânico já sinalizou que trabalha com parceiros na formulação de um “plano viável” para reabrir o Estreito de Ormuz, evitando falar abertamente em uma intervenção militar direta. Em paralelo, a diplomacia francesa entrou em campo, com o presidente Emmanuel Macron conversando diretamente com o presidente do Irã na tentativa de desescalar a tensão.
Nesta segunda-feira, a União Europeia realiza reuniões de emergência para definir não apenas como reagir ao bloqueio em Ormuz, mas principalmente como lidar com a pressão colossal imposta por Donald Trump.
Economia global e o encolhimento da aliança
A crise no Estreito de Ormuz não pode ser lida apenas pelo viés militar. Ela ocorre em um contexto global já frágil. Há quatro anos, o Ocidente não lidava com o nível de tensão que vemos hoje. Os reflexos de um bloqueio no Golfo Pérsico batem diretamente na inflação global, no aumento drástico do custo dos fretes marítimos e nos preços de insumos básicos, como fertilizantes — um choque econômico que o mundo já vem sofrendo desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia.
Além disso, a ameaça de Trump escancara uma mudança de paradigma. Se há pouco tempo discutíamos os limites geográficos da expansão da Otan, hoje o debate é outro. A aliança se vê sob o risco de um encolhimento político e estratégico. Se a Europa se recusar a seguir Washington no Oriente Médio, qual será o futuro do envolvimento dos EUA na própria segurança europeia, inclusive em conflitos sensíveis como o da Ucrânia?
O que está em jogo neste momento nas águas do Estreito de Ormuz vai muito além do fluxo de petróleo. Trata-se do futuro da aliança entre os Estados Unidos e a Europa e, em última instância, da própria estrutura de segurança internacional que conhecemos.
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