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Eduardo Mendes
Eduardo Mendes
Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, ele analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.

O YouTube e o futuro das assinaturas: a ascensão de um hub multiplataforma

O lançamento dos novos pacotes marca o ponto de inflexão: as assinaturas ultrapassam a publicidade em relevância e passam a ditar decisões, da arquitetura do produto à disputa por direitos esportivos

Quando Lucas Shaw, da Bloomberg, perguntou a Christian Oestlien se o YouTube TV é lucrativo, o executivo despistou. Disse que as estimativas públicas sobre o tamanho do serviço e os preços praticados permitem qualquer um ter uma ideia.

Analistas ouvidos por Shaw calculam que o YouTube TV tenha faturado US$ 10 bilhões em 2025. Com 10 milhões de assinantes, segundo a MoffettNathanson, é o terceiro maior operador de TV paga dos Estados Unidos, atrás apenas de Charter e Comcast.

A entrevista saiu no último dia 8, mesma semana em que o YouTube anunciou que começará a vender pacotes de TV mais baratos, segmentados por interesse. Fãs de esportes pagarão menos por um plano enxuto.

Como destacou Shaw, é uma tentativa de resolver o dilema do tempo de tela. As operadoras de TV paga sonham há décadas com isso. Queriam acalmar clientes que pagam por centenas de canais que não assistem. Mas nunca convenceram gigantes como Disney e NBCUniversal a desmembrar seus pacotes.

O YouTube conseguiu.

O serviço faz parte de um portfólio pago que já inclui YouTube Premium, assinaturas de canais individuais e revenda de serviços como Paramount+. No total, a plataforma fatura cerca de US$ 20 bilhões com assinaturas. É maior que o Spotify.

(Fonte: Bloomberg)

Em outubro de 2024, Roger Mitchel publicou uma coluna intitulada sugestivamente de: “Don’t Be Evil”. Ele analisava os problemas existenciais de conglomerados como Disney, Comcast e Warner Bros. Discovery. E, no meio da crise, apontou o YouTube como o único player que entendeu a economia dos pacotes.

“O YouTube tem o benefício único de ser distribuidor de conteúdo sob demanda e ao vivo, além de ser uma empresa de conteúdo que consegue monetizar o tempo do usuário depois que ele termina de ver um programa”, escreveu Mitchel. “O fã assiste a um jogo pelos canais do YouTube e, em seguida, consome mais conteúdo gratuito na plataforma, sem nunca sair do aplicativo. A atenção é totalmente capturada e monetizada por uma única empresa.”

A análise abriu espaço para uma metáfora certeira. Mitchel recorreu ao eterno clássico ‘Hotel California’, dos Eagles, para reforçar sua premissa: no YouTube, você pode fazer o check-out quando quiser, mas nunca consegue realmente ir embora.

Sandra Lehner observa que o YouTube está mostrando ao mercado que o futuro do streaming não está em pacotes cada vez maiores, mas em ofertas personalizadas para grupos de fãs com alta propensão a pagar. E, mais uma vez, o esporte emerge como o principal motor desse movimento.

Oestlien disse à Bloomberg que o novo pacote é “o produto esportivo mais completo já lançado”. Segundo ele, a NBC está relançando o NBC Sports Network dentro da plataforma. E todo o conteúdo do ESPN Unlimited estará disponível.

O cardápio ampliado leva a um debate paralelo sugerido por Jo Redfern: quem realmente controla a relação com o fã?

O YouTube é agora o único player a operar em três camadas de mídia: direitos ao vivo (NFL Sunday Ticket), criação de conteúdo esportivo e empacotamento de canais tradicionais como ESPN e Fox Sports. Ninguém mais no mercado oferece essa amplitude, frisou a analista.

A matemática dos pacotes e as resistências dos programadores

O plano custará US$ 65 por mês. É 22% mais barato que o pacote completo do YouTube TV, de US$ 83. Serão “pouco mais de 10 planos” divididos em três categorias: esportes, notícias e entretenimento. O usuário pode comprar cada um separadamente.

Matthew Keys, do The Desk, fez uma observação relevante. Se o YouTube TV pudesse oferecer um pacote exclusivamente esportivo, sem canais de notícia, o preço cairia para US$ 55. Os programadores, por sua vez, ainda não estão dispostos a abrir mão de certas amarras. Eles querem empurrar CNN e Fox News junto com ESPN. Ou seja, usam os canais esportivos mais valorizados para turbinar a audiência dos noticiosos.

Oestlien deu um contexto histórico. Quando o YouTube TV foi lançado, a ideia original era vender um pacote enxuto com canais abertos por US$ 10 a US$ 15. Não foi possível. Os parceiros têm portfólios amplos de canais pagos e exigem que tudo seja vendido junto.

“Gostaríamos muito de seguir na direção de pacotes menores e mais baratos”, disse Oestlien. “Esta é a primeira oportunidade que temos de oferecer aos consumidores alívio nos preços e embalagens mais personalizadas.”

Assinatura, não anúncio

O YouTube gerou US$ 62 bilhões em 2025. Já era o segundo negócio de streaming mais lucrativo, atrás da Netflix. A diferença diminuiu: o lucro operacional chegou a US$ 8,6 bilhões, dois terços do da Netflix, ante pouco mais da metade em 2024, segundo estimativas.

Os dados de Hernan Lopez reforçam sua visão de que o YouTube se aproxima de um superapp de mídia, com uma plataforma multiplataforma, múltiplos formatos de conteúdo e múltiplas fontes de receita.

Quando o Chief Business Officer da Alphabet, Philipp Schindler, foi questionado sobre o impacto da migração de usuários de anúncios para assinaturas do YouTube, ele ressaltou a importância de pensar no negócio de “forma holística”.

A receita de assinaturas está crescendo, especialmente no YouTube Music e Premium, refletindo uma mudança de foco, que coloca o formato como motor principal da plataforma, enquanto a publicidade se torna um complemento.

O contexto reforça por que Lopez é taxativo ao dizer que a plataforma atingiu um ponto de inflexão: a economia de assinantes do YouTube já é mais relevante que a de publicidade. Os produtos pagos são grandes o suficiente para que o crescimento da receita de anúncios deixe de ser a prioridade. Isso tem implicações diretas na estratégia de conteúdo. Incluindo a compra de direitos esportivos.

Quando Shaw perguntou se o YouTube vai fazer uma oferta pelo próximo pacote de direitos da NFL, Oestlien foi evasivo, mas deixou um recado: “Tudo o que fizemos com eles até agora foi um grande sucesso. Estamos muito animados com a possibilidade de fazermos ainda mais juntos.”

O YouTube já opera nas três camadas da relação com o fã: distribuidor ao vivo, ecossistema de criadores e, agora, operadora de TV segmentada. O próximo passo parece tão óbvio quanto o entusiasmo de Oestlien para ampliar a parceria com a liga mais valiosa do planeta.