Ao Vivo TMC
Ao Vivo TMC
Jamil Chade
Jamil Chade
Um dos grandes nomes do jornalismo internacional, Jamil Chade é jornalista e escritor, com vasta experiência em coberturas globais. Trabalhou para grandes veículos brasileiros e internacionais, sendo reconhecido por sua atuação como correspondente. Jamil Chade repercute os fatos que movimentam a geopolítica internacional. Entre os destaques da cobertura, as discussões na Organização das Nações Unidas, entidade que o jornalismo acompanha de perto.

Petróleo venezuelano, China e EUA: os impactos geopolíticos da disputa por 50 milhões de barris

Os 50 milhões de barris de petróleo venezuelano em disputa representam, em termos de produção local, aproximadamente 50 dias de extração. Atualmente, a Venezuela produz cerca de 1 milhão de barris por dia, um volume significativamente inferior ao registrado no auge de sua capacidade produtiva. Ainda assim, quando analisado dentro da realidade venezuelana, trata-se de uma quantidade expressiva de recursos.

Sob a ótica dos Estados Unidos, esse volume equivale a aproximadamente três dias de consumo anual de combustíveis. Embora possa parecer pouco à primeira vista, são três dias de abastecimento do maior consumidor de petróleo do mundo, o que confere relevância estratégica ao montante. Em termos financeiros, o valor estimado gira em torno de 3 bilhões de dólares, cifra considerada significativa dentro do contexto energético e comercial internacional.

No entanto, o aspecto central da questão vai além do volume físico ou do valor monetário do petróleo. Esses barris já haviam sido adquiridos pela China antes de qualquer redirecionamento. Esse ponto introduz um elemento de conflito direto, uma vez que o governo chinês declarou publicamente que condena a iniciativa atribuída ao governo dos Estados Unidos. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, os contratos firmados entre China e Venezuela estão protegidos pelo direito internacional, o que inviabilizaria o desvio do petróleo originalmente destinado ao mercado chinês para o mercado norte-americano.

A posição chinesa deixa claro que, na visão de Pequim, não existe legitimidade para a redistribuição unilateral desses barris. A questão deixa de ser apenas uma disputa entre Estados Unidos e Venezuela e passa a envolver diretamente uma segunda superpotência global, com contratos em vigor com a estatal venezuelana PDVSA.

Embora os 50 milhões de barris não representem uma quantidade considerada extrema no mercado global, o contexto revela uma estratégia mais ampla. Os Estados Unidos afirmam buscar a recuperação de cerca de 90 bilhões de dólares que teriam sido investidos na Venezuela e posteriormente perdidos. Dentro dessa lógica, os 50 milhões de barris corresponderiam a aproximadamente 5% desse valor, funcionando como um ponto de partida. A principal indagação passa a ser o que virá depois desse primeiro movimento e qual será o modelo adotado para a apropriação do petróleo venezuelano nos próximos passos.

A obtenção desses 50 milhões de barris ocorreria ao longo de cerca de três meses, considerando uma produção diária de 1 milhão de barris. A partir desse ponto, surgem limitações operacionais. O próprio governo norte-americano reconhece que será necessário o envolvimento direto de empresas americanas na Venezuela para garantir que o petróleo seja efetivamente direcionado ao mercado dos Estados Unidos. Nesse sentido, já existem informações sobre reuniões agendadas entre empresas do setor petrolífero e a Casa Branca, com o objetivo de estruturar esse modelo de atuação.

A produção venezuelana atual, estimada em 1 milhão de barris por dia, tem uma característica relevante: aproximadamente 500 mil barris diários já estavam sendo destinados à China. Ou seja, quase metade da produção do país sul-americano tinha como destino o mercado chinês. É justamente esse ponto que gera questionamentos por parte de Pequim, que busca esclarecimentos sobre a validade e a continuidade dos contratos firmados com a PDVSA. Caso esses contratos sejam considerados encerrados, a relação entre China e Venezuela precisaria ser completamente rediscutida.

O tema ganhou espaço também em fóruns multilaterais. Em uma recente reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), houve uma tentativa de diversos governos latino-americanos de blindar o governo de Donald Trump. Durante o encontro, a delegação norte-americana afirmou que não permitirá que uma das maiores reservas de petróleo do mundo permaneça nas mãos de adversários dos Estados Unidos.

Esse posicionamento ocorre em um cenário mais amplo de tensão internacional. Na Europa, o momento é descrito como de preocupação crescente. Reuniões recentes entre líderes europeus, como o encontro realizado no Palácio do Eliseu, em Paris, refletem esse clima. Veículos de imprensa franceses destacaram o tema com manchetes que mencionam imperialismo e alertam para mudanças profundas na ordem internacional.

Após décadas sob um sistema de proteção consolidado, líderes europeus se veem diante da necessidade de lidar com uma nova realidade. Essa transformação envolve não apenas questões militares, mas também econômicas e políticas, diante de ameaças vindas do leste europeu e, agora, da relação com os Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. Países fora da União Europeia, como a Suíça, também demonstram constrangimento e percepção de que antigas relações privilegiadas já não se sustentam da mesma forma.

Nesse contexto, a disputa em torno do petróleo venezuelano deixa de ser um episódio isolado e passa a integrar um cenário mais amplo de reconfiguração das relações internacionais, no qual contratos, alianças e modelos de atuação construídos ao longo de décadas estão sendo colocados em revisão.