Desde o século XVIII consolidou-se, sobretudo a partir do pensamento iluminista, a ideia de que a política seria movida essencialmente pela razão. A crença central era a de que as sociedades avançariam à medida que a população se tornasse mais educada, mais formada e mais bem informada. Educação, formação e informação compõem esse núcleo conceitual que sustenta, inclusive, o pressuposto básico do jornalismo: ao informar, produz-se consciência, e, com mais consciência, seria possível alcançar decisões políticas mais racionais.
No entanto, o cenário político contemporâneo tem revelado um movimento distinto. Cada vez mais se observa a presença do que se convencionou chamar de paixões negativas, ou paixões tristes, no funcionamento da política. Nesse contexto, é importante esclarecer o significado de “afeto”. Afeto não se restringe a sentimentos positivos, como amor ou afeição. Afeto é tudo aquilo que nos afeta, e, portanto, inclui emoções e disposições negativas, como ressentimento, medo, pânico e insegurança.
O ressentimento, em especial, tem se mostrado um motor relevante das decisões políticas, sobretudo do ponto de vista dos eleitores. Trata-se da percepção de que o mundo, a história ou a sociedade estariam em dívida com o indivíduo; da ideia de que algo lhe foi retirado injustamente; ou ainda da comparação constante com aqueles que vivem melhor. Esse conjunto de percepções e sentimentos alimenta engajamentos e adesões políticas, especialmente em um ambiente marcado pela intensa circulação de opiniões.
As redes sociais desempenham um papel central nesse processo. Elas funcionam como um espaço de proliferação dessas paixões negativas, potencializando ressentimentos, medos e hostilidades. Nesse ambiente, emoções como o medo da violência, da perda de bens, da imposição de comportamentos indesejados ou da aceitação forçada de determinadas pautas tornam-se elementos recorrentes do discurso político. Políticos profissionais e especialistas em marketing político observam atentamente esses movimentos e os incorporam às suas estratégias.
O populismo, nesse sentido, não é um fenômeno novo. Já houve outras ondas populistas significativas, inclusive no Brasil. O que chama atenção no presente é a sua disseminação em escala global e a sensação de que se trata de um fenômeno difícil de conter. A explicação para esse crescimento não se baseia em impressões pessoais, mas em análises consolidadas na filosofia política e na ciência política contemporâneas.
De forma geral, o populismo pode ser compreendido como a oferta de soluções extremamente simples para problemas que são, na realidade, profundamente complexos. A história fornece exemplos recorrentes desse tipo de lógica: atribuir a um grupo específico a culpa por todos os problemas de uma sociedade ou identificar um único inimigo como causa universal das dificuldades coletivas. Trata-se de uma estratégia que simplifica a realidade e oferece respostas rápidas para questões que exigiriam tempo, análise e políticas de longo prazo.
A maior parte dos problemas enfrentados pelas sociedades modernas é complexa e não admite soluções imediatas. Ainda assim, à medida que cresce a participação popular em larga escala, aumenta também a tendência ao populismo. A participação de massas frequentemente busca identificar culpados claros e soluções diretas, baseadas na experiência cotidiana, na intuição ou na crença de que a presença de um líder forte seria suficiente para resolver impasses estruturais.
O aumento do engajamento político, a ampliação da circulação de opiniões e o uso intensivo das redes sociais contribuem para esse cenário. As redes funcionam como catalisadoras desse processo, favorecendo discursos simplificados e emocionalmente carregados. Nesse ambiente, o populismo encontra terreno fértil para se expandir.
Há, por parte de profissionais da política e do marketing político, uma racionalidade específica na exploração dessas paixões negativas. Essa racionalidade consiste em observar o comportamento do eleitorado, identificar medos, ressentimentos, raivas e ódios, e utilizar esses elementos como recursos estratégicos para alcançar vitórias eleitorais. Em termos filosóficos, trata-se de uma racionalidade instrumental, na qual emoções e afetos são empregados como meios para atingir determinados fins.
Essa lógica de manipulação das paixões negativas tem se mostrado eficaz do ponto de vista eleitoral. O uso calculado do medo, do ressentimento e da indignação aumenta as chances de sucesso político. Assim, no contexto do século XXI, marcado pelo crescimento do engajamento, pela circulação massiva de informações e pela presença constante de desinformação, observa-se uma tendência ao fortalecimento de populismos tanto à esquerda quanto à direita do espectro político.
