Uma semana após a derrota da seleção de Lionel Messi na final da Copa do Mundo, depois de um mês aturando um Brasil polarizado não pela política, mas pela divisão entre fãs e detratores da então campeã mundial, é ainda da Argentina que vem o grande assunto do noticiário brasileiro.
Nos balcões das padarias, nas conversas nos carros por aplicativos ou nos fumódromos daqui, Javier Milei vive seus momentos de celebridade. Muitos e muitas que não o conheciam agora falam sobre seu cabelo e suas excentricidades.
Mas o chefe de Estado, tratado por parte da imprensa e da população como motivo de chacota, deve ser levado a sério, e com razão, pela diplomacia e pelo governo do Brasil.
Afinal, Javier Milei é o presidente da Argentina, ainda que seja muito menor que o país que foi escolhido para liderar.
E ao Brasil, apesar da vontade de reagir com o fígado, cabe administrar a situação do fim-de-semana passado com parcimônia, sendo o “adulto na sala”, pois está em jogo não só uma liderança regional muito mais que simbólica. Estão na mesa questões econômicas reais, não apenas entre os dois países, mas também com o resto do mundo, que enxerga Brasil e Argentina tal qual Janus, o deus romano de duas faces, as duas faces que lideram o Mercosul e hoje tem visões tão diferentes sobre o futuro do bloco.
A tempestade verbal de Javier Milei pode até continuar. Mas ele não tem condições de perder muito tempo com assuntos externos. Todas as recentes pesquisas mostram sua desaprovação acima dos 50%. Alguns levantamentos ultrapassam a casa dos 60%. Problemas internos não faltam: a inflação, por exemplo, que já foi 78 vezes maior que a brasileira, hoje é “apenas” 7 vezes maior. O Produto Interno Bruto daqui é atualmente três vezes maior que o de lá.
Também sete vezes maior é o volume de reservas internacionais brasileiras em relação às argentinas, embora os números de desemprego e de população abaixo da linha da pobreza sejam semelhantes dos dois lados da fronteira.
Falando em semelhanças, há outro ponto importante e decisivo que nos une: falta pouco mais de um ano para as eleições presidenciais na Argentina. Já se pergunta, em Buenos Aires, que brasileiros desembarcarão no aeroporto Jorge Newbery para fazer campanha a favor de Milei.