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Bruna Allemann
Bruna Allemann
Jornalista especializada em economia e finanças, Bruna Allemann descomplica o mercado financeiro e orienta sobre as melhores práticas de economia pessoal, investimentos e planejamento financeiro.

Reflexões práticas sobre consumo, inflação e escolhas financeiras diante da Black Friday

Sempre que chega a Black Friday, volto a um ponto que considero fundamental: priorizar a necessidade antes do desejo. Ao longo dos anos, esse tem sido um dos princípios mais repetidos quando falo de educação financeira, muito ligado aos vieses comportamentais que moldam as nossas decisões. Parte do resultado financeiro vem da quantia que recebemos, mas outra parte depende diretamente do comportamento, das crenças e da consistência diária. Perceber isso exige amadurecimento, e é por isso que sempre retorno à pergunta básica: o que é realmente necessário?

No dia a dia, essa distinção aparece o tempo todo. Quando converso com leitores ou com pessoas próximas, surge frequentemente o exemplo clássico: trocar ou não trocar a geladeira. A frase costuma vir assim: “a minha geladeira não está tão boa”. A partir daí, começo o exercício: ela ainda funciona? Está cumprindo seu papel? A necessidade muitas vezes não está ali; está em outras despesas que vêm pesando mais, como as compras de supermercado. Produtos de limpeza, por exemplo, têm se mostrado cada vez mais caros e, em muitos casos, podem ser estocados quando aparece uma promoção.

Por isso, quando a Black Friday se aproxima, passo a observar o que realmente vale a pena. Nesta mesma semana, falei sobre investimentos de alto risco, sobre consistência e também sobre o 13º salário, que aparece como uma oportunidade. Ele oferece a chance de pagar dívidas, cobrir necessidades, separar uma pequena parte para gastos pessoais e guardar para investir. Mas, quando entramos na Black Friday, tudo volta à mesma divisão: estou diante de um desejo ou de uma necessidade? E, se for necessidade, ela é mesmo indispensável agora?

Com inflação alta, noto como muitos de nós começamos a justificar compras com aquela sensação de “merecimento”. Já falei várias vezes sobre a “taxa do eu mereço”. É algo que reconheço em mim também, especialmente quando chego ao fim de semanas muito intensas. Mas, quando abro o guarda-roupa, lembro de um método simples que adotei: separar em cabides as roupas que uso das roupas que não uso. Toda vez que faço isso, percebo o quanto ainda há peças intactas, e isso limpa a tentação de comprar roupa na Black Friday, que para mim costuma ser uma furada.

Em uma pesquisa recente, vi que um em cada cinco brasileiros pretende usar a Black Friday para comprar alimentos e bebidas, buscando aliviar o impacto da inflação. Essa informação me fez lembrar do que fiz no ano passado: aproveitei as promoções para estocar papel higiênico, sabão de roupa, amaciante e outros itens assim. São produtos que continuamos comprando ao longo da vida, e quando aparecem com desconto, a economia se acumula de maneira real.

Nos últimos dias, ao ir a um atacadista, vivi outra situação que sempre menciono para ilustrar o peso dessas escolhas. Costumo usar uma marca de produto de limpeza concentrado e via o preço chegar a cinquenta reais o frasco de cinco litros. Durante as promoções da Black Friday, encontrei o mesmo produto por trinta e cinco reais. Para quem compra regularmente, essa diferença muda o planejamento mensal. Em um cenário em que custos de supermercado atingem todas as classes, inclusive a classe média, essa atenção se torna ainda mais necessária.

Também volto sempre ao tema da inflação percebida, que é bem diferente da inflação medida oficialmente. Enquanto os índices marcavam algo perto de 5%, no cotidiano víamos o tomate subir mais de 40% e o café se aproximar de 100%. Esses números não permitem estocagem da mesma maneira que produtos de limpeza, mas mostram por que tanta gente está com dificuldade de manter o orçamento em dia.

Quando observo tudo isso junto, penso que mais pessoas poderiam aproveitar a Black Friday de modo estratégico. A pesquisa que menciona apenas um em cada cinco usando esse período para aliviar despesas essenciais me parece mostrar que muitos ainda cedem ao impulso. E é justamente nesses períodos de inflação alta que o controle se torna mais necessário. A pergunta que repito para mim e para quem me acompanha continua sendo simples: isso é desejo ou necessidade? E, se for necessidade, ela realmente merece prioridade agora?

É dessa reflexão contínua que tiro minhas escolhas e meus comentários nesta época do ano. Não se trata de eliminar desejos, mas de reconhecer que o equilíbrio financeiro começa quando conseguimos enxergar com clareza o que nos sustenta e o que apenas nos seduz. É assim que tenho estruturado minha relação com a Black Friday e com o planejamento financeiro em geral, sempre voltando ao ponto inicial: primeiro a necessidade, depois o resto.