Para investidores e empresas brasileiras, os riscos geopolíticos de 2026 não são apenas pano de fundo, mas variáveis centrais de precificação de ativos, decisões de investimento e desenho de estratégia corporativa.
Em primeiro lugar, a combinação de competição sistêmica entre Estados Unidos e China, multiplicação de conflitos armados e uso mais agressivo de instrumentos econômicos como sanções, tarifas e controles de exportação cria um ambiente de geoeconomia litigiosa, em que o custo de errar o alinhamento estratégico aumentou sensivelmente.
Para o Brasil, altamente exposto a commodities e dependente de insumos críticos como fertilizantes russos, isso significa maior volatilidade de preços, riscos de ruptura logística e necessidade de sofisticar a gestão de riscos de suprimento, inclusive com diversificação de origens e uso intensivo de hedge em mercados futuros.
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Em segundo lugar, a incerteza política nos Estados Unidos e a reconfiguração do papel de Washington na ordem internacional passam a impactar diretamente o espaço de manobra da política externa brasileira e as expectativas de investidores em relação ao país.
A agenda de Trump 2.0, com tendências mais transacionais em comércio e maior predisposição a usar tarifas, sanções direcionadas e condicionantes políticos em negociações bilaterais, torna mais provável a ocorrência de choques exógenos sobre setores específicos da economia brasileira, mesmo em cenários de bom desempenho macroeconômico doméstico.
Para empresas, isso implica desenhar cenários que incluam mudanças abruptas em barreiras de acesso a mercados, regras de conteúdo local e exigências de alinhamento político implícito, especialmente em cadeias ligadas a minerais críticos, energia e defesa.
Terceiro, o tabuleiro latino americano adiciona uma camada própria de complexidade. A captura de Maduro e a intervenção norte americana em Venezuela, somadas à volatilidade política na Argentina e ao reposicionamento de governos na região, elevam o risco de episódios de descontinuidade institucional e de revisões contratuais em setores regulados, notadamente energia, infraestrutura e mineração.
Para o Brasil, isso tem dupla implicação: de um lado, aumenta a importância de uma diplomacia econômica capaz de amortecer choques regionais; de outro, cria oportunidades seletivas de consolidação regional para grupos brasileiros com apetite a risco e boa governança, desde que apoiados por estruturas robustas de diligência política e de segurança.
No plano doméstico, o ciclo eleitoral de 2026 se cruza com essas tensões externas e tende a amplificar ruídos já presentes, como polarização política, uso de desinformação e incerteza quanto ao compromisso de longo prazo com responsabilidade fiscal. Investidores internacionais monitoram não apenas o resultado da eleição, mas a capacidade do próximo governo de implementar reformas que preservem a estabilidade macroeconômica e mantenham um ambiente minimamente previsível para contratos de longo prazo.
Isso significa que empresas brasileiras precisarão navegar simultaneamente riscos regulatórios internos e riscos geopolíticos externos, aumentando a relevância de estratégias de compliance integradas, de monitoramento contínuo de risco político e de construção de relações institucionais profissionais e transparentes.
Em termos práticos, o investidor que olha para o Brasil em 2026 não pode mais se apoiar na velha dicotomia risco país versus prêmio de commodities. O que está em jogo é a capacidade do país de se posicionar como fornecedor confiável de energia e alimentos em um mundo mais fragmentado, sem se deixar aprisionar em disputas de alinhamento binário.
Empresas que internalizarem esse cenário desde já tenderão a buscar três movimentos: diversificação de mercados e fontes de financiamento, fortalecimento de governança e transparência para lidar com exigências regulatórias internacionais mais rígidas e desenvolvimento de inteligência geopolítica própria, capaz de antecipar choques e transformar volatilidade em oportunidade. Para o Brasil, a grande questão é se o sistema político conseguirá prover o mínimo de estabilidade regulatória e previsibilidade para que essa sofisticação estratégica floresça, em vez de ser apenas um discurso elegante em relatórios trimestrais.
