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Joana Treptow
Joana Treptow
Destaque pelo estilo espontâneo na apresentação jornalística, Joana Treptow teve passagem pela TV Bandeirantes, onde começou a atuar como repórter de TV e, em seguida, passou a integrar o elenco de âncoras do veículo, além de produzir reportagens especiais.

Ubá, Juiz de Fora, Canoas, Petrópolis e Angra dos Reis… É surpresa para quem?

As tragédias mudam de endereço, mas se repetem pela negligência

Já contabilizamos mais de 60 mortos. Ainda há desaparecidos. Os números podem facilmente ser confundidos com números de outras grandes tragédias. Eles se juntam e misturam na nossa memória como se fossem um único evento que nunca acaba.

As imagens parecem repetidas. São registros de Ubá e de Juiz de Fora – mas poderiam ser qualquer outra cidade. As encostas cedendo, a terra desmoronando. Casas desmontando como se fossem feitas de papel. Vídeos de gritos e pedidos de socorro, resgates dramáticos. As histórias que vem depois disso. Os que conseguiram se salvar. Os que não conseguiram.

A tragédia ganha nomes, rostos. E pouco tempo depois, a vida continua – até a próxima grande catástrofe.

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A sensação de impotência, angústia e tristeza ao ver tudo isso não é nada para quem vê de longe – exatamente porque não nos tange. Não é a nossa vida indo embora, e nem a de parentes ou amigos. Não fomos nós que sobrevivemos por um triz – mas podemos vir a ser. Pode não só vir a nos tanger como também pode nos atravessar. É uma questão de tempo.

Um levantamento do Serviço Geológico do Brasil mostra que quase 5 milhões de pessoas moram em área de risco no país. Os principais riscos são deslizamentos de terra e alagamentos e os estados mais afetados são Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

É terrível escrever isso, mas as próximas mortes vão acontecer. É questão de tempo.

E enquanto não lidarmos com o terrível, com o trágico, como uma questão de tempo, vamos continuar aceitando o argumento de que “uma chuva desta magnitude é difícil de prever”. É isso que os governantes repetem. Porque é assim que os especialistas analisam.

Mas há uma diferença. Uma coisa é um especialista em meteorologia afirmar que aquela situação específica, naquele dia, naquele momento, era imprevisível. Outra, muito diferente, é um prefeito, um governador, um presidente usarem essa constatação técnica para anular a própria responsabilidade.

Os dados existem para que, a partir deles, caminhos sejam traçados. Ignorar os dados também é escolher um caminho – o da negligência.

Juiz de Fora tem cerca de 130 mil pessoas que moram em áreas de risco. A cidade está em quarto lugar no ranking nacional de risco geológico. O padrão das chuvas está mudando. Um estudo com dados de 1991 a 2023 mostrou que os desastres climáticos no Brasil aumentaram 460% em relação aos anos 1990. Em 2024, o Cemaden registrou 3.620 alertas para eventos extremos.

Há muitos números, recortes, uma variedade imensa de dados. E todos apontam para o mesmo cenário. Estamos vivendo um novo normal.

Não existe solução fácil. Mas ignorar os dados é escolher repetir a tragédia.

O ideal, neste aspecto, seria retirar todas as pessoas das áreas de risco. Isso envolve não só investir em estrutura e construção de moradias, mas convencer pessoas a deixar as suas vidas para trás porque “algo pode acontecer”.

Já cobri muitas tragédias de chuvas e posso garantir que, inocentemente, as pessoas sempre acham que não vai acontecer com elas. Outras sabem da iminência da destruição, mas aquela casa é tudo que têm e não querem sair.

Esse trabalho de convencimento é infinitamente mais complexo do que arrumar dinheiro e levantar novas moradias.

Mas é para isso que precisamos do poder público. Para que viabilizem soluções para problemas complexos – e não usar as feridas, que nunca fecham, como promessa eleitoral.

Porque o mapa das áreas de risco existe. Os alertas existem. Os relatórios existem. A ciência não engana. A desculpa, sim.