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Jamil Chade
Jamil Chade
Um dos grandes nomes do jornalismo internacional, Jamil Chade é jornalista e escritor, com vasta experiência em coberturas globais. Trabalhou para grandes veículos brasileiros e internacionais, sendo reconhecido por sua atuação como correspondente. Jamil Chade repercute os fatos que movimentam a geopolítica internacional. Entre os destaques da cobertura, as discussões na Organização das Nações Unidas, entidade que o jornalismo acompanha de perto.

Venezuela no centro do pacto com Washington e as exigências que redefinem o poder global

O tema envolvendo a Venezuela tende a permanecer no centro do debate internacional por um período prolongado. Não se trata apenas do país sul-americano. Na Europa, por exemplo, há preocupações paralelas, como a Groenlândia, o que reforça a leitura de que a Venezuela pode representar apenas um primeiro movimento dentro de um contexto mais amplo de reposicionamento geopolítico.

Desde o sábado mais recente, um ponto específico chamou a atenção de observadores: a forma como Donald Trump descartou a oposição venezuelana que vinha sendo tratada como potencial alternativa de governo. Nomes como Maria Corina Machado, que até então apareciam como peças centrais de uma possível transição política, deixaram de ocupar esse espaço. A mudança de postura foi rápida e surpreendeu muitos analistas.

O que se seguiu foi a confirmação de um pacto com Delcy Rodríguez, que passa a assumir a Presidência da Venezuela. Esse acordo, no entanto, não se limita a uma simples troca de comando ou a uma relação informal de influência. Houve a apresentação de exigências claras por parte do governo americano para que Delcy Rodríguez pudesse assumir e governar, mantendo a estrutura do chavismo em funcionamento.

A primeira exigência é direta: acesso ao petróleo venezuelano. O objetivo é a abertura do mercado para que empresas americanas possam investir e explorar essa riqueza. Dentro desse contexto, está prevista, inclusive, uma rodada de reuniões de Donald Trump com CEOs de empresas dos Estados Unidos para discutir de que forma essa abertura pode ocorrer na prática.

A segunda exigência diz respeito ao destino das exportações de petróleo da Venezuela. Washington quer que o país deixe de abastecer adversários do governo americano, especialmente Cuba, Irã e China. No caso cubano, o combustível venezuelano é apontado como um dos principais fatores que sustentam o funcionamento do país. Situação semelhante ocorre em relação ao Irã. Já no caso chinês, o fornecimento de petróleo venezuelano contribui para a competitividade da economia da China no cenário global.

Outro ponto colocado sobre a mesa envolve segurança e presença estrangeira. Os Estados Unidos exigiram que operativos iranianos, cubanos e de qualquer outro país considerado adversário sejam expulsos do território venezuelano. Trata-se de uma condição ligada diretamente à influência externa dentro do país.

Entre todas as exigências, uma das partes que mais chamou atenção foi a relacionada ao processo eleitoral. Diferentemente do discurso tradicional sobre democracia, direitos humanos e críticas ao período de Nicolás Maduro, não houve exigência de eleições imediatas. Não existe, pelo menos neste momento, pressão para a realização de um pleito no curto prazo.

Essa ausência de cobrança por eleições gerou apreensão dentro da oposição venezuelana. Lideranças como Maria Corina Machado, Edmundo González e outros integrantes do grupo opositor reagiram com preocupação diante do novo cenário. Na mesma noite em que o pacto ganhou repercussão, Maria Corina declarou que a última vez que falou com Donald Trump foi em outubro, sinalizando o distanciamento entre a oposição e o governo americano neste novo arranjo.

O quadro que se desenha é o de um acordo baseado em interesses estratégicos, com exigências objetivas e sem pressa para mudanças institucionais internas. A Venezuela passa a ocupar um papel central dentro dessa negociação, que extrapola suas fronteiras e se conecta a disputas mais amplas no cenário internacional.