O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da Sessão Plenária da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial em Nova Délhi, na Índia. O discurso ocorreu nesta quinta-feira (19/02) e marcou o primeiro compromisso oficial da visita do presidente brasileiro ao país asiático. Lula apresentou a posição do Brasil sobre a necessidade de uma governança global da tecnologia que seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento.
O presidente alertou que a ausência de ação coletiva pode ampliar desigualdades históricas e fragilizar democracias. A participação brasileira aconteceu no quarto encontro do Processo de Bletchley, série de reuniões intergovernamentais sobre segurança e governança de inteligência artificial iniciada em novembro de 2023 no Reino Unido.
Siga a TMC no WhatsApp e fique por dentro das últimas notícias do Brasil e no mundo
Concentração de poder tecnológico preocupa governo brasileiro
Lula destacou os riscos da concentração de poder nas mãos de poucos países e empresas. O presidente informou que o Brasil tem fortalecido discussões sobre uma política de atração de investimentos em centros de dados e sobre um marco regulatório de inteligência artificial.
“A Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente. É nesse contexto que a governança global da inteligência artificial assume um papel estratégico. Sem ação coletiva, a inteligência artificial aprofundará desigualdades históricas. O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a inteligência artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países”, afirmou Lula.
O presidente ressaltou que dados gerados por cidadãos, empresas e organismos públicos brasileiros estão sendo apropriados por poucos conglomerados. Segundo Lula, essa apropriação ocorre sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda nos territórios nacionais.
“Capacidades computacionais, infraestrutura e capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas. Os dados gerados por nossos cidadãos, empresas e organismos públicos estão sendo apropriados por poucos conglomerados, sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda em nossos territórios“, declarou o presidente.
Tecnologia apresenta riscos e oportunidades
Lula traçou paralelos históricos para contextualizar os desafios da inteligência artificial. O presidente mencionou que a União Internacional de Telecomunicações aponta 2,6 bilhões de pessoas desconectadas do universo digital.
“A aviação, o uso do átomo, a engenharia genética e a corrida espacial são exemplos desse fenômeno. Elas podem multiplicar o bem-estar coletivo ou lançar sombras sobre os destinos da humanidade. A Revolução Digital e a Inteligência Artificial elevam esse desafio a níveis sem precedentes“, afirmou o presidente.
O presidente brasileiro destacou impactos positivos e negativos da tecnologia. “Elas impactam positivamente a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética e a forma como nos conectamos uns com os outros. Mas também podem fomentar práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho. Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital. São parte de uma complexa estrutura de poder”, declarou Lula.
Democracia e direitos humanos no centro do debate
Lula enfatizou a necessidade de colocar o ser humano no centro das decisões sobre inteligência artificial. O presidente alertou sobre os perigos da tecnologia para processos democráticos.
“Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente. O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo“, declarou o presidente.
“Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas. Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia“, afirmou Lula.
O presidente criticou o modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia. “Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação. A regulamentação das chamadas Big Techs está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países. O modelo atual de negócios dessas empresas depende da exploração de dados pessoais, da renúncia do direito à privacidade e da monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política”, declarou Lula.
Plano Brasileiro de Inteligência Artificial
Lula destacou que o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial foi lançado em 2025. O presidente afirmou que o plano expressa o compromisso com a melhoria da qualidade de vida das pessoas através de serviços públicos mais ágeis e maior estímulo à geração de emprego e renda.
Processo de Bletchley reúne líderes globais
A Cúpula em Nova Délhi é o quarto encontro do Processo de Bletchley. A primeira edição ocorreu em Bletchley Park, Reino Unido, em novembro de 2023. Os encontros seguintes aconteceram em Seul (“Seul AI Summit”), em maio de 2024, e em Paris (“AI Action Summit”), em fevereiro de 2025.
O primeiro-ministro indiano Narendra Modi é o anfitrião do encontro. A cúpula reuniu líderes e representantes de diversos países para discutir segurança e governança de inteligência artificial.
Relações bilaterais entre Brasil e Índia
Lula e Modi encontraram-se quatro vezes nos últimos três anos. Os encontros ocorreram em 21 de maio de 2023, à margem da Cúpula do G7, em Hiroshima; em 10 de setembro de 2023, à margem da Cúpula do G20, em Nova Délhi; em 21 de junho de 2024, na Cúpula do G7, na Itália; e em 19 de novembro de 2024, à margem da Cúpula do G20, no Rio de Janeiro.
Em setembro de 2023, Lula visitou a Índia acompanhado de mais de 100 delegações empresariais brasileiras. O primeiro-ministro Narendra Modi foi recebido em visita de Estado ao Brasil em 8 de julho de 2025, na sequência de sua participação na 17ª Cúpula do BRICS, realizada no Rio de Janeiro.
Comércio bilateral cresce
O comércio brasileiro com a Índia atingiu US$ 15 bilhões em 2025. O valor representa um acréscimo de 25,5% em relação a 2024 e é o maior registrado na série histórica.
As exportações brasileiras para a Índia foram de US$ 6,9 bilhões. O país asiático é o 10º destino das exportações brasileiras. As importações brasileiras da Índia foram de US$ 8,4 bilhões. A Índia é a 6ª maior origem de importações pelo Brasil.
Brasil e Índia estabeleceram meta de elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões até 2030. Os dois países iniciaram negociações para a ampliação do Acordo de Comércio Preferencial MERCOSUL-Índia.
Dados sobre a Índia
A Índia é o país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes. É a quarta maior economia do planeta, com PIB de cerca de US$ 4,2 trilhões. O país pode vir a se tornar a terceira maior economia até 2030.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Índia é o segundo maior produtor agrícola do mundo em termos de valor da produção, atrás apenas da China. Por esse critério, o Brasil ocupa a quarta posição. A Índia é o nono país em exportações agrícolas. O Brasil ocupa a terceira posição.
Agenda bilateral continua
Após o encerramento da Cúpula sobre Inteligência Artificial, o presidente brasileiro deu sequência à sua visita oficial à Índia com encontros bilaterais programados. Os dois líderes abordarão temas relacionados ao fortalecimento das parcerias entre Brasil e Índia em áreas estratégicas.
O relacionamento bilateral entre Brasil e Índia deverá ser orientado ao longo da próxima década por cinco pilares prioritários. Os pilares foram identificados em Comunicado Conjunto emitido durante a visita de Modi ao Brasil: paz, defesa e segurança; transição energética e justiça climática; segurança alimentar/nutricional e comércio agrícola; transformação digital e ciência & tecnologia; e parcerias industriais em setores estratégicos.
Os líderes deverão abordar temas como os desafios ao multilateralismo e ao comércio internacional. As discussões incluirão a necessidade de reformulação da governança global, incluindo uma reforma abrangente das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. Os presidentes tratarão do compromisso com a paz em Gaza e o respeito à soberania das nações e com a democracia. As discussões também incluirão a troca de impressões sobre a conjuntura mundial.
