Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, declarou que o país possui condições mais adequadas para lidar com os efeitos econômicos do conflito no Oriente Médio. A avaliação foi apresentada nesta quinta-feira (26/03), em Brasília. A posição favorável resulta da estratégia conservadora adotada na condução da taxa Selic e do perfil brasileiro como exportador líquido de petróleo.
A autoridade monetária iniciou em março o ciclo de redução dos juros básicos. A Selic foi cortada em 0,25 ponto percentual, passando de 15% para 14,75%. O Comitê de Política Monetária optou por não estabelecer previamente os próximos movimentos da política monetária.
Acesse o canal da TMC no WhatsApp para ficar sempre informado das últimas notícias
A estratégia cautelosa na gestão dos juros proporciona ao colegiado margem para avaliar os desdobramentos do conflito bélico sobre a economia brasileira. Galípolo explicou que essa abordagem criou margem de segurança útil diante do novo choque externo.
“No caso do Brasil, o que aconteceu ao longo de 2025, o conservadorismo que a gente adotou reservou uma posição melhor do que se a gente não tivesse sido conservador. Nos permite ter uma gordura para analisar o desdobramento sobre a economia”, disse.
O dirigente alertou que o mercado já projeta consequências mais prolongadas da guerra sobre os preços. Essas pressões decorrem de restrições na oferta de petróleo e de outros produtos afetados pelos ataques bélicos na região.
O presidente do Banco Central contextualizou que a concentração de choques de oferta nos últimos anos ensinou aos banqueiros centrais que é difícil se apoiar na tese de que os efeitos são transitórios.
“É algo também que põe os banqueiros centrais em uma situação complexa. Você vai falar: é mais um choque temporário. É o quarto choque temporário em 10 anos? Isso vai dando rodadas de piora no nível de preço que tendem a causar sim uma sensação de desconforto à população.”
Galípolo destacou que a incerteza em relação ao conflito diminui a confiança do BC sobre as projeções de inflação de longo prazo. “A confiança que a gente tem em 10 pontos base em uma projeção se reduz. Muitas vezes, a composição passa a ser mais relevante do que número cheio, tem que fazer análises mais qualitativas do que está acontecendo para ter uma inflação mais alta“, avaliou.
A meta de inflação perseguida pela autoridade monetária é de 3,0% para o terceiro trimestre de 2027. A projeção atual do BC para esse horizonte é de 3,3%, apenas 0,10 ponto percentual acima da projeção realizada em janeiro, antes do início do conflito no Oriente Médio. O mercado financeiro considerou pequeno esse aumento na projeção.
Leia mais: IPCA-15 sobe 0,44% em março e acumula alta de 3,90% em 12 meses no Brasil
Choque de oferta pode produzir efeito contrário ao esperado
Galípolo explicou que, no Brasil, normalmente se associa um choque de petróleo a um efeito positivo sobre o Produto Interno Bruto (PIB), considerando que o país é exportador líquido. Esse resultado está vinculado a um choque de demanda. No caso atual, o que se configura é um choque de oferta, que pode produzir um efeito contrário.
“Todos os banqueiros centrais entendem que em uma situação como essa de choque de oferta tende-se a ter mais inflação e menos crescimento. E talvez, quanto mais aguda for a crise, maior impacto nessa segunda parte”, afirmou.
O presidente do BC alertou para a necessidade de distinguir a natureza do choque atual. “Temos uma tendência no Brasil em estabelecer uma correlação positiva entre preços de petróleo e crescimento, mas isso geralmente decorre de uma pressão de demanda nos preços de petróleo, não é a natureza desse choque agora“, disse.
O Banco Central precisará monitorar com atenção a transmissão do choque do petróleo para os preços de outros produtos e serviços. Galípolo ressaltou que essa vigilância é especialmente importante em um momento em que a atividade econômica brasileira demonstra resiliência.
“A posição que o BC do Brasil está hoje tem alguns benefícios por ser exportador líquido de petróleo e por conservadorismo dos juros. Por outro lado, é muito importante prestar efeitos de segunda ordem, em especial em economia que tem mostrado tanta resiliência“, completou.




