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Economista-chefe da Fiesp com profundo conhecimento em macroeconomia, setor industrial e políticas públicas, Igor Rocha traz a visão do setor produtivo. Ele analisa o cenário econômico no Brasil e no exterior com foco nos indicadores, nas políticas monetárias e fiscais, e no impacto desses fatores para a indústria e o cidadão brasileiro.

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O preço do petróleo e o futuro energético

A alta do petróleo pode acelerar a transição energética global e abrir uma janela estratégica para o protagonismo do Brasil na economia de baixo carbono

Por Igor Rocha | Atualizado em
Foto: FreePik
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O recente aumento dos preços do petróleo recoloca no centro do debate global a dependência estrutural de combustíveis fósseis em um mundo que reconhece a urgência da transição energética. Mais do que um choque de custos, o encarecimento do petróleo atua como um sinal econômico poderoso. Diante da pressão na inflação, o mundo pode acelerar investimentos em descarbonização, ao tornar alternativas limpas relativamente mais competitivas.

Dados recentes da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que cada ciclo de alta relevante no petróleo tende a provocar um aumento nos investimentos em energias renováveis e eficiência energética. Após o choque de preços de 2022, por exemplo, o investimento global em energia limpa superou US$ 1,7 trilhão em 2023, com crescimento puxado por solar, eólica e eletrificação.

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É nesse cenário que surgem oportunidades concretas para a descarbonização não apenas como agenda ambiental, mas como estratégia econômica. Com o petróleo mais caro, tecnologias como veículos elétricos, hidrogênio verde e biocombustíveis tornam-se mais competitivas, sem a necessidade de subsídios tão elevados. Além disso, o custo evitado de emissões passa a ter maior relevância em decisões corporativas e financeiras, especialmente em mercados com precificação de carbono.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição especial. Diferentemente de outras economias emergentes, o país já possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, com cerca de 85% da geração proveniente de fontes limpas. Soma-se a isso uma liderança histórica em biocombustíveis, especialmente etanol e biodiesel, além de um potencial significativo em energia eólica e solar.

O aumento do preço do petróleo pode reforçar a competitividade dos biocombustíveis brasileiros no mercado internacional, sobretudo em países que buscam reduzir emissões no setor de transportes sem depender exclusivamente da eletrificação. O etanol da cana de açúcar apresenta uma das menores pegadas de carbono do mundo entre os combustíveis líquidos. Em um cenário de petróleo caro, sua atratividade econômica cresce, ampliando oportunidades de exportação e de acordos bilaterais.

Outro vetor promissor é o hidrogênio verde. Com abundância de recursos renováveis e potencial de produção a custos competitivos, o Brasil pode se posicionar como fornecedor relevante para mercados europeus e asiáticos. Estimativas indicam que o país poderia produzir hidrogênio verde a custos inferiores a US$ 2 por quilo, patamar considerado competitivo globalmente.

Entretanto, transformar potencial em liderança exige coordenação estratégica. O ambiente regulatório ainda carece de maior previsibilidade. Além disso, a inserção internacional do Brasil dependerá da capacidade de estabelecer padrões de certificação e rastreabilidade.

Para o Brasil, trata-se de uma oportunidade estratégica rara: consolidar vantagens já existentes e liderar a próxima etapa da economia de baixo carbono. A história econômica mostra que choques de preços frequentemente redefinem trajetórias de desenvolvimento. A questão central é se os países conseguirão transformar pressão conjuntural em visão de longo prazo. No caso brasileiro, os ativos estão postos. Resta saber se haverá coordenação, investimento e ambição suficientes para convertê-los em protagonismo global.

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