A primeira “Super Quarta” de 2026 entregou ao mercado um cenário de extrema cautela, ditado não apenas pelos indicadores domésticos, mas pela instabilidade geopolítica global. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil iniciou o ciclo de flexibilização com uma redução de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,75% ao ano, enquanto o Federal Reserve (Fed) optou pela manutenção das taxas americanas entre 3,50% e 3,75%.
O movimento conjunto reflete o impacto direto da escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que alterou drasticamente as projeções de inflação e o custo das commodities energéticas em escala mundial.
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Para Alison Correia, analista de investimentos e co-fundador da Dom Investimentos, as pressões inflacionárias ganharam força com a alta do petróleo impulsionada pela guerra, tornando nula a chance de o Fed baixar juros ainda este ano.
O analista destaca que o cenário é preocupante devido ao descompasso entre a atividade econômica e a inflação nos EUA; embora a criação de vagas de trabalho tenha vindo fraca, o choque do petróleo impede o alívio nos preços, complicando a condução da política monetária americana de forma inédita.
No Brasil, a decisão do Copom foi marcada por um tom mais conservador do que o antecipado pelo mercado no início do ano. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, avalia que o comitê foi enfático ao sinalizar preocupação com a inflação corrente e o ambiente internacional, deixando implícito que o ciclo de cortes pode até ser pausado caso haja uma deterioração adicional das expectativas.
Segundo Perri, a próxima reunião deve manter o passo de 0,25 ponto, desde que o impacto dos preços dos combustíveis siga administrável pelo governo e não haja novos choques cambiais.
A influência do conflito no Oriente Médio foi o fator decisivo para que o mercado abandonasse a aposta em cortes mais agressivos, conforme explica Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital. Ele pontua que, antes do início das hostilidades com o Irã, o consenso era de uma redução de 0,50 ponto percentual na Selic, mas o temor de impactos de longo prazo nos combustíveis forçou o Banco Central a adotar uma postura de “vôo curto”.
Para Izac, a continuidade de um ambiente saudável para novos cortes depende fundamentalmente de uma melhora no cenário de guerra internacional e da estabilidade das questões fiscais brasileiras.
Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, reforça que a escolha pelo corte menor foi tecnicamente coerente, dado que o petróleo saltou para uma média de US$ 103 por barril em poucas semanas. “A mensagem da curva de juros é clara: o mercado não acredita em um ciclo agressivo, e a guerra no Oriente Médio, somada ao petróleo acima de US$ 100, estreitou drasticamente o espaço para a flexibilização monetária”, analisa Trevisan.
O executivo alerta que o investidor deve esquecer o cenário de Selic a 12% no fim do ano, projetando agora uma taxa terminal na casa de 14,20%, o que exige um posicionamento mais defensivo em renda fixa pós-fixada e títulos atrelados ao IPCA.
Rodrigo Rios, CEO da LR3 Investimentos, ressalta que o atual choque do petróleo atua como um freio de mão para os bancos centrais, transformando a Super Quarta em um evento focado na gestão de riscos e na manutenção da credibilidade. Segundo o executivo, o avanço da commodity, impulsionado por tensões geopolíticas, gera um efeito duplo que pressiona a inflação e reduz drasticamente a previsibilidade do crescimento econômico global.
Nesse cenário, tanto o Federal Reserve quanto o Copom são forçados a adotar uma postura de máxima prudência, evitando qualquer sinalização precipitada de flexibilização que possa comprometer a ancoragem das expectativas inflacionárias no longo prazo.
Na avaliação de Rios, a volatilidade dos mercados nas próximas semanas será ditada mais pelo tom dos comunicados do que pelas decisões de taxas em si, uma vez que o investidor estrangeiro tende a buscar refúgio em ativos seguros como o dólar em momentos de guerra. Ele enfatiza que, com o Brent operando em níveis elevados e o risco de interrupções logísticas no Oriente Médio, o espaço para discursos “suaves” desapareceu, restando aos investidores um ambiente de maior aversão ao risco.
Apesar do ambiente restritivo, há visões que vislumbram uma oportunidade futura caso as tensões cedam. Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos, acredita que, se o conflito arrefecer e o risco geopolítico for reduzido, o Brasil poderá atrair um volume relevante de capital estrangeiro para setores de infraestrutura e energia.
No entanto, por enquanto, prevalece a cautela de Gustavo Silva, sócio-fundador da Private Investimentos, que destaca que a ameaça de greve dos caminhoneiros e a volatilidade do petróleo impõem serenidade aos próximos passos do Banco Central para garantir a convergência da inflação à meta.




