Google e Range Media se uniram para lançar a 100 ZEROS e atrair produtores de Hollywood para a corrida pelos microdramas. Na semana passada, a nova empresa anunciou uma lista de produções roteirizadas e não roteirizadas em parceria com os criadores de The Bachelor e American Idol. O objetivo é produzir histórias curtas que estrearão no aplicativo Google TV.
A estratégia prevê lançar os projetos primeiro no aplicativo Google TV em celulares Android e, depois, distribuí-los em outras plataformas.
No Brasil, o Grupo Abril anunciou no início do mês o lançamento do Pop! Pop! Pop!, uma plataforma de streaming dedicada exclusivamente a microdramas. O aplicativo aposta em novelas curtas com episódios entre 90 segundos e três minutos, produzidas integralmente em formato vertical para consumo em smartphones.
As iniciativas reforçam o que Hernan Lopez descreveu recentemente: a indústria parece estar “descobrindo” os microdramas como um “novo continente”.
Em fevereiro, mostrei aqui como esse mercado já equivale a alguns segmentos de nicho do streaming tradicional e por que se tornou uma indústria global que expõe uma nova assimetria do vídeo digital.
Mas há buracos em meio a esse boom que sugerem algo menos sólido do que parece.
Recentemente, Evan Shapiro foi taxativo ao afirmar que o modelo de negócios dos microdramas é uma “grande mentira”.
Segundo ele ouviu de diversas fontes, a ReelShort (um dos unicórnios do setor ) gerou US$ 1,3 bilhão em receita principalmente por meio de compras dentro do aplicativo para desbloquear episódios adicionais. O problema é que a empresa gastou praticamente o mesmo valor para adquirir os usuários necessários para gerar essa receita.
“Não se trata de crescimento orgânico. É marketing de aquisição paga”, escreveu o analista.

O modelo depende de campanhas agressivas em redes sociais, com custos de aquisição de clientes cada vez maiores. A consequência é uma rotatividade permanente de usuários e prejuízos significativos. Na projeção de Shapiro, a empresa perdeu cerca de meio bilhão de dólares no último ano.
Esse padrão, diz ele, se repete em grande parte dos pioneiros do microdrama, um modelo originalmente desenvolvido para o mercado chinês.
Dados recém-divulgados pela Omdia mostram que usuários da ReelShort nos Estados Unidos passaram, em média, 35,7 minutos por dia assistindo ao aplicativo no quarto trimestre de 2025. No celular, isso superou o tempo gasto com Amazon Prime Video, Disney+ e Netflix.
O problema é o custo dessa atenção.
Shapiro lembra que todos querem escala, porém poucos têm bilhões de dólares para queimar enquanto tentam descobrir o modelo de negócios no caminho.
Foi assim com o TikTok, lembrou o analista. A ByteDance queimou bilhões antes de transformar o Musical.ly no plataforma viral de vídeos e depois gastou dezenas de bilhões adicionais em marketing de aquisição e remarketing até consolidar sua posição global.
Mesmo nesse caso, o modelo só funcionou em escala massiva e dentro de um ambiente altamente controlado.
A Omdia estima que a receita global de microdramas atingirá US$ 14 bilhões até o final de 2026, com os Estados Unidos representando metade da receita fora da China até o próximo ano.
Shapiro, por sua vez, alerta que até mesmo os números frequentemente citados sobre essa economia são inconsistentes.
“A maioria não entende o modelo de negócios precário que sustenta os maiores players do setor. Todos são atraídos pela promessa de conteúdo roteirizado barato e bilhões em receitas recorrentes. Mas poucos olham para o custo de aquisição de usuários e para os gastos constantes de remarketing necessários para manter a máquina funcionando.”
Além da sustentabilidade financeira, há outra questão levantada por Ben Woods que ajuda a explicar os limites desse formato.
A explosão dos microdramas expõe uma distinção imprescindível no entretenimento digital: atenção não é o mesmo que fandom.
Milhões de pessoas consomem microdramas verticais todos os dias. Mas, segundo Woods, o que essas plataformas realmente estão otimizando é atenção descartável, e não relacionamento duradouro com o público.
As histórias são projetadas para serem intercambiáveis. O espectador não precisa lembrar da série, apenas continuar rolando a tela.
“A narrativa vertical veio para ficar”, diz Woods. “Mas muitos desses aplicativos de microdramas vão falhar e acabar se consolidando.”
E o insider traça um contraste importante.
O modelo do YouTube prioriza o criador. A plataforma incentiva o público a retornar às mesmas personalidades, construir relacionamentos e formar comunidades em torno delas. A atenção existe, e surge como consequência da lealdade.
Na leitura mais ampla de Shapiro, “algo maior está acontecendo no vídeo vertical”. Participantes estão entrando no mercado, trazendo novos casos de uso e modelos de distribuição.
Com a transição gradual para formatos gratuitos, abertos e financiados por publicidade, ele acredita que 2026 pode marcar o momento em que a televisão vertical finalmente se consolide.
Antes disso, porém, o mercado precisa resolver um dilema externado por Woods: se o objetivo for monetizar fandom, o conteúdo curto precisa aprofundar universos narrativos e servir comunidades de fãs. Não copiar a lógica descartável dos aplicativos de microdrama.
“Entretenimento sempre foi um negócio de atenção. A questão agora é outra.Que tipo de atenção você está construindo?”, questionou.