O fim de uma era: como o adeus aos CDs pode mudar o mercado de games

Além da migração para o digital, empresas terão o desafio de manter o vínculo emocional dos jogadores com suas franquias

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CDs e consolo do PLaystation
(Foto: Denise Jans na Unsplash)

Responsável pelo “Playstation”, a Sony publicou no site oficial um comunicado informando que, para “seguir de acordo com os novos costumes dos consumidores”, vai parar com as produções de CDs para jogos, migrando totalmente para mídias digitais a partir de janeiro de 2028, marcando assim o fim de uma era — tal como foi com as fitas cartucho.

Um efeito esperado, essa mudança de comportamento em alguns processos é considerada normal dentro do avanço tecnológico, assim como foi com as locadoras de filmes, como explica a psicóloga Renata Yamasaki, que analisou esse comportamento.

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A notícia pegou os gamers de surpresa. Segundo a Pesquisa Game Brasil (PGB) 2026, 75,3% dos brasileiros afirmam jogar, o equivalente a cerca de 160 milhões de pessoas.

Membros da comunidade que acompanharam a evolução dos consoles dizem que ficaram tristes com a mudança. Mas por quê?

Conversamos com alguns jogadores para entender como isso pode impactar o consumo desse público, como eles estão reagindo à notícia e qual oportunidade pode estar surgindo para empresas.

Mídia digital x mídia física: é a mesma emoção?

O tecnólogo em jogos digitais Omar Alves, de 31 anos, mais conhecido como “Lord Games Retrô”, tem uma coleção que é uma verdadeira viagem no tempo, que produz potente sentimento nostálgico! Além de todos os consoles (Playstation 1, 2, 3, 4 e 5), ele também possui dezenas de CDs de jogos originais.

Alves afirma que a notícia é triste, pois muitos colecionadores valorizam a mídia física original. Ele também ressaltou que, apesar de não existir uma regra única para colecionar, o item físico ainda é o que mais importa para muitos.

Para Omar, o maior “peso” para a preferência são os sentimentos e emoções envolvidos com a mídia física. “Não se trata de um objeto qualquer, trata-se de um objeto que fez parte da minha história… Os jogos digitais podem trazer praticidade aos jogadores, mas nunca serão ‘substituíveis’ pelos colecionadores. Esses jogos fazem parte da minha história e me desfazer deles é o mesmo que apagar parte da minha jornada percorrida até chegar onde eu cheguei hoje”.

“Lord dos Games Retrô” e um pouco da sua coleção (Arquivo Pessoal)

Renata Yamasaki explica que, por conta de os CDs serem algo “tátil”, “concreto”, acabam trazendo trocas sensoriais mais fortes e marcantes do que os jogos digitais, criando uma experiência mais completa.

“A compra de um CD físico envolve uma experiência muito mais ampla e sensorial. Havia todo um ritual: ir até a loja, olhar as prateleiras, escolher entre diferentes opções, segurar a caixa nas mãos e finalmente colocar o jogo no videogame. Todo esse processo criava expectativa e antecipação, tornando a experiência emocionalmente mais rica e marcante. A compra digital, por sua vez, privilegia a gratificação imediata e acaba reduzindo as oportunidades de vivenciar a espera e a construção da expectativa.”

Por isso, podemos esperar uma baixa no envolvimento desses consumidores com franquias que não possuem muito além apenas do jogo como material da série, afetando o comércio.

Para Guilherme Brasil, jornalista, que também é amante das mídias físicas do PlayStation, a mudança se trata de uma estratégia das grandes empresas para fortalecer um monopólio das vendas. Fica mais dificil para as lojas revenderem os jogos, reduzindo as plataformas oficiais da Sony na internet. Assim como Lord Retrô, cita a “nostalgia” produzida pelos discos como principal fator de diferença entre as duas mídias.

“Acho triste porque é sempre legal ver as lojas cheias de CDs, perde essa parte nostálgica, além da parte econômica. Talvez perca um pouco da magia”, opinou Guibr_1204, nickname do jornalista nos games.

Gabriel Brasil e alguns dos seus jogos (Arquivo Pessoal) 

A nostalgia por trás dos discos

Os dois players trazem como os CDs são capazes de despertar sensações, memórias e emoções. Omar cita que se lembra com nitidez da primeira compra do primeiro original. quando teve de ir até o Brás (região central de São Paulo) para se encontrar com a pessoa que iria lhe vender o produto. Gabriel relembra de quando passeava com o pai pelas lojas para escolher qual jogo iria levar, além dos momentos com os amigos. É como se os discos pudessem levá-los de volta para aqueles momentos.

Oportunidade para as desenvolvedoras e empresas de venda

A mudança, embora seja uma “seleção natural” da globalização dos avanços tecnológicos, deixa um vazio que pode também ser uma oportunidade no mercado para quem se atentar a preenchê-lo e voltar a deixar a experiência completa.

O principal ponto abordado pela especialista foi a necessidade de estímulos sensoriais, além da imersão do jogo no digital. Em outras palavras, algo que o jogador possa ver, pegar, ter, mesmo que o console esteja desligado, criando um desafio maior aos jogos, que agora vão precisar investir mais para gerar conexões emocionais entre a experiência e a pessoa.

Você sabia?

Os CDs da Sony eram pintados de preto na parte inferior para tentar evitar a pirataria e dar maior autenticidade aos produtos originais.

Primeiro CD original comprado por Omar, o final Fantasy IX para Playstation 1, que funciona até hoje (Arquivo Pessoal)

As desenvolvedoras precisam entender essa demanda, não se atendo apenas à relação entre comprar e jogar, mas também a como podem fazer para aquele jogo ganhar um espaço na casa e na história de quem o acessa.

Figure Actions dos personagens, posters oficiais, CDs decorativos, historinhas, chaveiros, xícaras, edições com itens personalizados para colecionadores ou mesmo revistas com bastidores e curiosidades da produção podem ser algumas saídas, não resumindo assim os jogos apenas às suas presenças nas plataformas digitais.

Os projetos que se encaixarem nos produtos finais de venda sairão na frente para preencher a lacuna emocional que o encerramento da fabricação das mídias físicas vai deixar no mundo game.

“Esses itens também ajudam a fortalecer a memória afetiva, o sentimento de pertencimento e a identidade do fã, que passa a expressar seu vínculo com o jogo para além da experiência no console, porque tornam a experiência do jogo mais concreta e prolongam a conexão do jogador com aquele universo. Por isso, investir em produtos colecionáveis pode ser uma alternativa interessante para as empresas diante do fim dos CDs físicos”, analisa a psicóloga.

Os gamers comentam como os CDs lhes lembraram momentos da infância ou juventude, fazendo assim com que, na fase mais velha, tenham maior apego. As empresas devem entender que a hora de tentar criar afetividade com seu maior público (a geração Z, que compõe mais de 30% dos gamers no Brasil), a hora de pegar essas dicas para tentar já ir gerando conexões e, lá na frente, ganhar consumidores mais fiéis para as sequências ou compra de colecionáveis, é agora!

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