Durante o Brandcast em Nova York há duas semanas, o YouTube anunciou que as marcas agora podem comprar anúncios diretamente em programas específicos da plataforma.
Fontes do Digiday indicaram que, neste ano, as negociações giraram em torno de quem controla a infraestrutura da própria publicidade. O foco foi vender sistemas operacionais, e não apenas inventário de TV.
E o YouTube passou boa parte do tempo reforçando exatamente isso: sua capacidade de conectar publicidade, mensuração e entretenimento dentro de um mesmo ecossistema cercado por criadores.
O analista Fernando Morett decretou que o streaming agora é um jogo de publicidade. O título de seu artigo que analisa os upfronts (“YouTube’s Victory Lap“) é sugestivo, mas não exagerado.
Não por acaso, o debate apresentado em Nova York rapidamente encontrou eco no mercado brasileiro. Na semana passada, foi a vez do YouTube no Brasil reafirmar a nova diretriz ao apresentar sua própria solução de métricas para marcas.
Chamado de Brand VAR, o projeto oferecerá aos 11 cotistas da transmissão da Copa do Mundo FIFA na Cazé TV uma medição baseada em quatro pilares: audiência, mensagem, marca e intenção.
A conjectura macro contempla a migração da audiência para o digital e a necessidade de compreender um consumo de conteúdo cada vez mais fluido entre telas.
Ao comentar que 56% do consumo de streaming no país acontece dentro do YouTube, Gustavo Souza, diretor de produtos e soluções publicitárias do Google Brasil, retomou justamente um dos conceitos centrais desse novo cenário: a fluidez entre vídeo curto e longo, celular, computador e TV conectada.
A discussão apresentada nos upfronts, por sua vez, vai além da venda de mídia.
Neste contexto, outro ponto que ganha repercussão é: quem captura o valor gerado pela circulação do conteúdo em um ecossistema fragmentado?
Recentemente, Annie Krukowska fez a seguinte provocação: “Quando o IP viaja, para onde vai o valor?” Se a propriedade intelectual agora trafega por transmissões, streaming, FAST, YouTube, plataformas sociais e sistemas operacionais de TV, o que acontece com o valor durante essa transferência?
A analista argumenta que, na nova cadeia, esse valor deixou de ser aditivo para se tornar multiplicativo.
“A transmissão televisiva cria peso cultural. As redes sociais criam participação. O YouTube cria descoberta. O FAST cria hábito. O patrocínio cria profundidade comercial. O talento cria reconhecimento. A transmissão ao vivo cria escassez. O licenciamento cria influência.”
O problema, segundo Krukowska, é que grande parte da indústria ainda mede desempenho como se cada uma dessas camadas operasse isoladamente: audiência na TV, visualizações no YouTube, horas consumidas no FAST, engajamento social, receita de patrocínio e CPM.
A observação ajuda a explicar por que a discussão sobre métricas ganhou tamanho protagonismo nos upfronts deste ano.
Ao fazer um paralelo com a lógica tradicional da televisão, Morett observa que o YouTube construiu exatamente a mesma infraestrutura que sustentou o mercado televisivo por décadas: você compra um espaço publicitário para um programa específico, em um contexto específico, diante de um público específico.
A diferença é que agora essa infraestrutura opera em escala digital.
No Puck, Julia Alexander trouxe a previsão de que o YouTube represente cerca de um quarto de todas as vendas de anúncios em TVs conectadas neste ano, algo próximo de US$ 9 bilhões.
A analista destaca que o YouTube passou a oferecer exatamente o tipo de compra publicitária historicamente utilizado pela televisão para atrair grandes marcas. (Não por acaso, na apresentação brasileira, a plataforma resgatou o clássico conceito de “Prime Time” para posicionar os jogos da Copa). A diferença é que agora faz isso combinado a uma audiência massiva.
“A proposta se torna irrefutável”, escreveu Alexander.
E não é apenas uma questão de infraestrutura.
Como destacou Aline Moda, diretora de desenvolvimento de agências e soluções para marcas do Google Brasil, o YouTube oferece uma grade ilimitada.
A assertiva funciona como ponto de conexão para outra provocação feita por Krukowska: a televisão tradicional foi construída em torno do controle da exibição de conteúdo, e essa lógica moldava diretamente o valor da propriedade intelectual.
O YouTube opera de maneira diferente.
A plataforma não precisa controlar quando ou onde o público interage com o conteúdo. Em vez disso, captura a atenção antes mesmo de a audiência chegar ao conteúdo, reconfigurando a própria formação de valor da propriedade intelectual.
Para Krukowska, o que está em declínio não é necessariamente a televisão, mas a lógica herdada da era clássica do planejamento de mídia, baseada em demografia, controle e contenção.
Essa visão tratava a propriedade intelectual principalmente como um veículo de entrega de anúncios, avaliado por alcance e impressões, e não como um ativo capaz de acumular relevância cultural, lealdade e valor ao longo de múltiplas superfícies.
Logo no início deste ano, escrevi sobre como a publicidade passou a organizar o futuro do vídeo e por que esse tema se tornaria o eixo central da discussão: um campo de batalha simultaneamente global e local, que hoje se sobrepõe às próprias guerras do streaming.
Os upfronts e o evento brasileiro do YouTube reforçam exatamente essa percepção.
E volto ao ponto central da tese: as big techs redefiniram a mídia a partir de rupturas tecnológicas específicas em cada geração, mudanças suficientemente poderosas para capturar atenção, reorganizar o mercado publicitário e deslocar a mídia legada.
O movimento atual, talvez, seja apenas a versão mais sofisticada desse processo.
Além da disputa pela audiência, o YouTube passou a concentrar simultaneamente distribuição, descoberta, mensuração, contexto cultural e, agora, infraestrutura publicitária.