Thomaz Rafael
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Mais jovem jornalista credenciado na Copa de 94, Thomaz Rafael consolidou o futebol no FM ao lado de Eder Luiz. Com 25 anos de Transamérica TMC, soma coberturas de Copas do Mundo, Olimpíadas e Fórmula 1. Atualmente, demonstra sua versatilidade no comando do Link TMC, trazendo análise e experiência sobre os principais fatos do esporte e da atualidade.

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Esporte, guerras, política e o velho antissemitismo de parte da mídia

É inegável que esporte e política volta e meia se confundem em nossa história. Às vezes pro bem, às vezes pro mal

Por Thomaz Rafael | Atualizado em
(Foto: Reprodução/X/@ISRAELFA)

De Jesse Owens humilhando Hitler em Berlin, em 1936, ao recente afastamento de atletas russos de competições internacionais, passando pela pressão (e possível intromissão) dos militares argentinos na Copa de 78 e pelos famosos boicotes aos Jogos de Moscou e Los Angeles, é inegável que esporte e política volta e meia se confundem em nossa história. Às vezes pro bem, às vezes pro mal!

Imaginar, por exemplo, a seleção sulafricana jogando uma Copa enquanto a população negra do país era segregada oficialmente na asquerosa política do Apartheid seria algo ultrajante. Para o bem do futebol e principalmente da humanidade, a FIFA baniu o país africano de competições internacionais durante aquele período.

Hoje em dia as discussões sobre punições aos atletas de países mergulhados em conflitos ou conhecidos pelos maus tratos a sua população são bem mais complicadas. E muitas vezes com defesas radicais de lados opostos sendo despejadas diariamente nas redes sociais. E aí invariavelmente surge a oportunidade para a famosa indignação seletiva dos hipócritas. Sejam eles jornalistas esportivos, filósofos, influencers, artistas e até mesmo desconhecidos que tentam aparecer vociferando palavras de ordem imbecis no Instagram… muitas vezes sem ter a menor noção do que estão falando.

Particularmente, fico normalmente incomodado ao avaliar se um país deve ou não ser banido de alguma competição esportiva por erros internos de seus governantes. Posso estar até me contradizendo, já que acabei de defender a punição aos sulafricanos durante o Apartheid. Mas ali era uma forma de exigir mudanças diante de uma política oficial (e aviltante) que validava o racismo.

Em outros casos, onde profundas modificações se tornam inviáveis por questões bélicas ou mesmo pela sólida formação de blocos entre várias nações, o esporte talvez se torne, de fato, a única salvação para cidadãos perseguidos ou mal tratados. Foi assim durante anos, por exemplo, com atletas do Leste Europeu. Muitos conseguiram asilo político em outras nações, enquanto outros tiveram uma espécie de licença para desafiar a opressão de governos autoritários sem correr risco de morte… tudo graças ao esporte e a possibilidade de se destacar em torneios fora de seus territórios.

Em nações africanas destruídas por guerras étnicas internas, o futebol e o atletismo selaram da mesma forma a salvação de muitos. Já em algumas nações do Oriente Médio, ainda que de uma maneira menos impactante, e tendo que superar diversos obstáculos impostos por líderes radicais religiosos, algumas mulheres puderam ao menos desfrutar da “liberdade” da prática esportiva.

Tudo isso pra dizer que por mais ojeriza que eu tenha pelo governo teocrático iraniano, entendo que os atletas do país, maiores vítimas de seus líderes misóginos, homofóbicos e xiitas, devam seguir defendendo a bandeira do Irã (especialmente com o leão e o sol como legítimos representantes da cultura persa) nos grandes eventos esportivos. E isso incluir, obviamente, a Copa do Mundo deste ano.

Da mesma maneira que atletas da Arábia Saudita, Coreia do Norte, Níger, Eritreia, Cuba e outros países reféns de ditaduras (de direita ou esquerda) também não precisam ser punidos pelas atrocidades de seus compatriotas.

Quando o problema cruza fronteiras, a questão fica um pouco mais delicada. É bastante natural, por exemplo, pelo menos pra mim, que ao invadir a Ucrânia sem nenhum motivo minimamente razoável, a Rússia deva perder qualquer direito legítimo de “desfrutar” do fair play e popularidade das maiores competições esportivas do planeta. Ao contrário da Ucrânia, que tenta simplesmente se defender em meio a passividade de muitas nações vizinhas que não querem se comprometer.

O mesmo serve para Israel, que desde sua criação, em 1948, convive com bombas e mísseis sendo atirados de todos os lados na região por terroristas quase sempre financiados (ou no mínimo ignorados de maneira conveniente) por países vizinhos que também desejam a destruição da única democracia da região. A alternativa de defesa não é simplesmente um direito. É também sinônimo de sobrevivência. E quem diz o contrário não tem ideia do que acontece por lá. Ou simplesmente tem uma “quedinha” pelo antissemitismo.

Os episódios sanguinários do fatídico 7 de outubro não foram suficientes para diminuir as mentiras dessa gentalha. Narrativas tão enviesadas quanto absurdas que viajam o mundo, inclusive com o apoio de parte da mídia, disseminando fake news com a força de um furacão… para depois serem desmentidas – quando são desmentidas – com a leveza de um soprar de vento. E portanto muito menos barulho.

É a velha tática nazista: conte uma mentira muitas vezes que aos poucos ela se tornará realidade para a opinião pública. Neste momento, direto do Inferno, Goebbels deve estar orgulhoso.

Cabe aqui uma observação relevante. Da mesma maneira que perante o ódio e a estupidez de quem prega o antissemitismo, Israel terá sempre meu apoio, também torço pelo povo e atletas da Palestina, tão vítimas do Hamas quanto os israelenses; assim como tenho enorme empatia pelo povo iraniano; também pelos iemenitas, vítimas dos Huthis (apoiados aliás pelo governo do Irã); pelos sudaneses e pelos sírios, também oprimidos e massacrados por guerras internas; pelos libaneses que vivem no sul do país, praticamente sequestrados pelo Hezbolah…

Enfim, torço de verdade pelo fim das guerras, mas especialmente pelo fim dos grupos terroristas, do radicalismo e dos líderes que pregam a destruição do próximo.

Por fim, torço pra não ler bobagens escritas por ignorantes que pedem a exclusão de atletas israelenses em competições internacionais, usando como justificativas comparações simplórias e de mau gosto entre a (inevitável) guerra do país contra grupos terroristas e a invasão russa ao território ucraniano. Ou ainda pior, ao imperdoável e sanguinário massacre de 7 de outubro. Tragédia aliás que em nenhum momento foi sequer lamentada por alguns destes infelizes que hoje querem condenar o esporte de Israel.

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