O esporte do povo falhou, mais uma vez, em ser totalmente do povo e excluiu uma parcela grande da sociedade em um grave episódio de preconceito.
Em 2021, o lateral-esquerdo australiano Joshua Cavallo se pronunciou nas suas redes sociais assumindo publicamente que é homossexual. Na época, o atleta defendia o Adelaide United, também da Austrália, clube pelo qual atuou até a temporada 2024/2025.
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Apesar de “polêmica” para os padrões heteronormativos do esporte, a decisão de Joshua foi celebrada e apoiada dentro e fora do clube; pelo menos nas primeiras semanas após o comunicado.
Em março de 2025, Joshua revelou ao podcast “Footballers Unfiltered”, da FIFPRO (Federação Internacional de Associações de Futebolistas Profissionais), que recebia com frequência muitas ameaças de morte desde que se assumiu publicamente.
Na última segunda-feira (12/01) deste ano, porém, a história ganhou um triste e conclusivo capítulo. O jogador – hoje no Peterborough Sports, da sexta divisão inglesa – desabafou sobre uma dor que carregou por anos no Adelaide e que culminou na sua decisão de sair do clube.
Joshua, em seu comunicado, afirma que “pessoas em posições de poder” o impediram de jogar com frequência, muitas vezes nem mesmo sendo relacionado para o banco de reservas.
“Pessoas em posição de poder bloquearam oportunidades a mim, não por conta do meu talento, mas por quem escolhi amar”, afirmou o lateral.
De fato, portais como Sofascore e OGOL mostram que Joshua atuava com frequência nas temporadas 2020/2021 (19 jogos, 2 assistências) e 2021/2022 (20 jogos, 2 assistências), que aconteceram antes, durante, e logo após seu anúncio. Nas temporadas seguintes, porém, o número de minutos em campo diminuiu drasticamente para o lateral: foram 8 jogos na temporada 2022/2023, 4 na temporada 2023/2024, e nenhum jogo na temporada 2024/2025.
O atleta também revelou em seu comunicado que sentia “raiva porque as pessoas pensavam que eu estava afastado por lesões, quando na verdade, era a homofobia interna que me mantinha na reserva”.
“Foi difícil de lidar quando percebi que meu próprio clube é homofóbico“, disparou Joshua em sua publicação. “Eu mantive o profissionalismo, abaixei a cabeça e trabalhei duro todo dia – e tenho orgulho disso. Mas não importava o quanto eu produzisse ou melhorasse, minhas contribuições eram continuamente ignoradas”.
O jogador ainda revela que enfrentou problemas com a negatividade trazida para sua vida pessoal e profissional com os episódios citados, chegando a questionar se deveria ter mantido sua orientação sexual em segredo.
Apesar do difícil relato, Joshua terminou o comunicado em tom positivo e esperançoso. Ele afirmou que o “novo começo” na Inglaterra o ajudou a “respirar novamente”, e disse que “se recusa a permitir que isso [o motivo pelo qual saiu do Adelaide United] estrague minha ligação com a cidade”. O lateral termina seu comunicado com um agradecimento aos torcedores do Adelaide United, dizendo que “foi um prazer jogar para vocês”.
Carreiras e vidas são perdidas para a homofobia no esporte
A homofobia no futebol já faz vítimas há um longo tempo. No Brasil, temos o exemplo de Richarlyson, ex-São Paulo e Atlético Mineiro. O meio-campista só se assumiu bissexual muito depois de pendurar as chuteiras, mas lidou com o peso descomunal de ser percebido como homossexual por uma cultura que despreza o diferente.
Mesmo acumulando títulos expressivos na carreira – como um Mundial de Clubes, uma Libertadores e três Brasileiros -, Richarlyson nunca conseguiu ter seu nome projetado fora do país e vestiu pouquíssimas vezes a camisa da Seleção. O jogador chegou a enfrentar problemas até mesmo para arrumar clubes para jogar; havia um entendimento de que o time que contratasse Richarlyson seria alvo de “piadas”.
Além disso, há a trágica história de Justin Fashanu, jogador homossexual falecido em 1998. O atleta inglês iniciou a carreira aos 17 anos pelo Norwich, e três anos depois se tornaria o jogador negro mais caro do futebol inglês na época após sua transferência para o Nottingham Forest – pela cifra de 1 milhão de libras.
Justin não correspondeu às expectativas no novo clube, e boatos sobre sua vida fora dos gramados começavam a ganhar força. Rumores sobre suas idas a boates gays da cidade o tornaram alvo de piadas e abuso até mesmo entre seus próprios torcedores.
Brian Clough, técnico do clube, ficou sabendo da vida pessoal de Fashanu e teve uma reação quase alérgica: o jogador foi barrado do time principal e sequer podia treinar com os demais atletas.
A carreira de Fashanu caiu em declínio após a soma da sua “infame reputação” com uma lesão grave no joelho que o afastou por quase um ano dos gramados.
Em 1990, o jogador se declarou abertamente homossexual em entrevista ao tabloide “The Sun”. Seu irmão, o também atleta John Fashanu, chegou a oferecer dinheiro para que o jogador não o fizesse, e se recusou a aceitar que Justin era homossexual. “Ele era minha luz, e se tornou meu pior inimigo“, declarou John ao “The Guardian”.
Desamparado, Justin Fashanu nunca mais conseguiu manter o futebol em alto nível e nem afastar os ataques de ódio contra ele; nem mesmo quando tentou ser treinador após se aposentar.
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Em 1998, Fashanu foi acusado de estupro por um jovem nos Estados Unidos. O agora treinador não foi declarado culpado pelo estupro, mas na época, atos homossexuais eram ilegais por si só; temendo ser preso, ele retornou à Inglaterra.
Em 2 de maio de 1998, Justin Fashanu foi encontrado morto em sua garagem após se enforcar. Em sua carta de suicídio, ele afirma que o jovem que o acusou teve relações consensuais com ele, mas tentou extorqui-lo em seguida. Justin se recusou a dar dinheiro para o rapaz, que então teria feito a falsa acusação para se vingar.
Em um trecho da nota, Justin diz: “Não quero mais ser uma vergonha para minha família e meus amigos“.
A verdade é que, se o futebol almeja mesmo ser o “esporte do povo”, os profissionais e membros da cultura deste esporte precisam começar a incluir todo o povo – e não apenas aqueles que eles julgam “normais”.
