A Samuca TV atingiu a quinta maior audiência entre os canais que transmitiram o sorteio da Libertadores na quinta passada, considerando react e exibição com imagem. A plataforma 100% dedicada à cobertura do Cruzeiro superou players tradicionais como Rádio Itatiaia, líder disparada de audiência em Minas Gerais, SBT e UOL.
A transmissão foi feita do novo estúdio lançado no fim de janeiro. A estrutura já estava nos planos de Samuel Venâncio quando o entrevistei em julho do ano passado para contar o case do jornalista que largou a carreira na Itatiaia em 2022 para criar sua própria empresa de mídia.
Na última sexta-feira, comentei os números registrados pela CazéTV e GE TV durante a definição dos grupos da Libertadores. Discuti como o YouTube representa uma lógica de mídia completamente diferente da televisão tradicional, especialmente no que diz respeito aos formatos nativos digitais.
Com o esporte ao vivo bem consolidado nessas plataformas, perguntei qual seria o próximo passo. Hoje, trago os dados da Samuca TV para continuar a discussão, mas sob outro viés.
Há duas semanas, mostrei como o YouTube ratifica ser o epicentro impulsionador da mídia independente liderada por indivíduos. E por que esses projetos se aproximam mais de startups do que de produções tradicionais. A Samuca TV é um negócio surgido apenas em 2022 e que ganhou escala para funcionar como um negócio jornalístico.
Essa transformação está diretamente ligada ao que Evan Shapiro me falou em uma entrevista publicada em outubro do ano passado: a mídia tradicional não está apenas competindo com grandes players (como CazéTV e GE TV), mas com milhares de nichos hiperengajados.
“A ideia de simplesmente falar com as massas como modelo de negócios está praticamente encerrada”, disse Shapiro.
Por isso, ele aposta que a economia dos criadores e a mídia tradicional deixarão de ser facilmente distinguíveis.
“Quando você ligar sua televisão, o conteúdo vindo da mídia tradicional e o das plataformas de criadores começará a se misturar. Isso formará uma única e grande economia de afinidade do entretenimento.”
Existe uma polarização óbvia entre CazéTV e GE TV por serem os dois maiores players, paralelamente a uma disputa entre mídia legada e formatos digitais nativos. Esse embate, por sua vez, também deve considerar a ascensão dos criadores que funcionam como próprias mídias. Eles e suas comunidades super engajadas irão dividir e pulverizar audiência em um mercado já totalmente fragmentado.
Carlo De Marchis costuma dizer que estamos na era do micro-broadcaster. Segundo o analista, o momento aponta para o que ele chama de quarto estágio da escalada dos criadores: uso simultâneo de plataformas públicas, canais pagos e experiências premium.
Retomo também um conceito de Doug Shapiro sobre o qual escrevi no passado: a desintermediação. Estúdios, gravadoras e editoras sempre dominaram por controlar o acesso. A tecnologia mudou isso. Hoje, criadores conseguem produzir, distribuir e monetizar direto com seus públicos, reduzindo a dependência dos intermediários.
Em um cenário de tráfego escasso e hegemonia do YouTube, criadores oferecem algo que a mídia tradicional não consegue: acesso direto e em escala a comunidades engajadas e fiéis. Eles são a evolução natural do pacto midiático. Se antes jornalistas trocavam acesso por publicidade, agora criadores entregam ligas e atletas a um canal direto com os fãs.
A discussão é oportuna também para podermos afirmar: não teremos outro Casimiro no Brasil.
Diante do crescimento de comunidades lideradas por criadores como a Samuca TV, faço um paralelo com MrBeast e o que seu empresário disse no fim de fevereiro em entrevista ao Business Insider.
Reed Duchscher, conhecido por trabalhar com o maior YouTuber do mundo, ajuda pessoas a gerar fama e dinheiro na internet. Veja como ele enxerga o ecossistema das redes sociais em 2026 e por que acredita que grandes plataformas como o YouTube não querem ver surgir outro MrBeast.
“Há algumas mudanças que percebi nos últimos anos. Uma delas é que as plataformas não querem que alguém rompa completamente. Os algoritmos do TikTok, YouTube e Instagram agora colocam você em um pequeno nicho de conteúdo que sabem que você gosta, e continuam alimentando você com isso.”
Nas palavras de Duchscher, as plataformas preferem ter “um grande meio de campo de criadores”, com 5 a 10 milhões de seguidores, em vez de deixar algumas poucas pessoas “dominarem tudo”.
O próximo Casimiro não virá da TV. Pode nem despontar no formato de um fenômeno isolado, e é mais provável que surja na forma de centenas de Samucas, cada um com sua comunidade, estúdio e operação. O YouTube não precisa de outro gigante justamente por já ter o ecossistema funcionando.
Durante as Olimpíadas de Paris 2024, debati sobre como o torneio evidenciaria uma cobertura descentralizada e fora do controle absoluto dos detentores de direitos. O analista Michael Cohen projetava na época que “criadores ou pequenas equipes produziriam conteúdos em um nível abrangente e adaptado a públicos específicos”, funcionando como “mini-ESPNs.”
Shapiro tem razão quando crava que há uma nova cadeia de valor emergente na mídia. Criadores agora produzem, distribuem e monetizam com ferramentas acessíveis, enquanto consumidores viraram curadores e amplificadores.
Em uma perspectiva realista, o insider Simon Owens aposta que em cinco anos todas as empresas de mídia tradicionais operarão como caçadoras de talentos, recrutando criadores independentes incansavelmente.
Acrescento: isso poderá acontecer até mais rapidamente do que pensamos.