Às 16h (de Brasília), o Paraguai entra em campo para enfrentar a Grécia, em amistoso preparatório para a Copa do Mundo de 2026. Embora seja um jogo sem importância competitiva, o confronto pode reservar um capítulo alviverde, pois pode marcar a estreia do meia Maurício, do Palmeiras, na Albirroja.
Naturalizado em fevereiro, Maurício foi convocado pela primeira vez pelo técnico Gustavo Alfaro nesta Data Fifa, a última antes da Copa do Mundo – que o Paraguai está classificado. A decisão do meia de defender o país vizinho, assim como de outros atletas que trocaram de nacionalidade, chamou atenção do Brasil e da TMC, que tentou entender os porquês do palmeirense ter mudado de cidadania. A reportagem encontrou três pontos principais: influência familiar, impacto esportivo e ganhos financeiros.
Influência familiar
Logo que se naturalizou paraguaio, Maurício explicou que parte de sua família paterna é natural do país, o que impactou em sua decisão. “Uma parte da família do meu pai é do Paraguai. Minha avó, já falecida, era paraguaia. Meu pai nasceu no Brasil, mas foi bebê para lá, passou a infância e a adolescência toda no Paraguai e voltou ao Brasil para trabalhar”, disse o meia em fevereiro.
Na própria Barra Funda, outra jogadora passou por situação parecida: a goleira Natascha Honegger, do time feminino. Nascida na Suíça, mas filha da mãe brasileira, a arqueira chegou a defender o time principal do país europeu, mas desde 2019 vem defendendo o Brasil. Em entrevista à TMC, a jogadora explicou uma situação similar à vivida por Maurício de como sua família pesou na decisão.
“Na minha infância, passava muito tempo no Brasil. Minha mãe nasceu numa cidade perto de Macaé, no Rio de Janeiro. Tenho mais primos que primas, e os meninos estavam sempre jogando bola e eu queria, também. Sempre me apoiaram. Minha família da Suíça não queria tanto que eu jogasse futebol, queriam que eu focasse nos estudos. Não que eu não estudei, mas eles viam o futebol como um hobby, não uma profissional, ainda mais no futebol feminino”, explicou Natascha.
“Posso até ter sotaque, não falar bem português, mas meu coração bate muito forte pelo Brasil”, enfatizou.
Especialmente na Europa, tem sido comum ver jogadores trocando países do Velho Continente por africanos justamente por essa questão familiar. Em 2023, inclusive, Marrocos e Espanha travaram uma guerra fria nos bastidores para ver qual país uma então promessa de então 16 anos chamada Lamine Yamal iria defender. Filho de pai marroquino, mas criado na Europa, o jovem optou por defender a La Roja.

Impacto esportivo
Trocar de seleção é uma decisão difícil. Enquanto jogadores de base, atletas podem defender quantos países quiserem. Porém, só podem defender um país em nível profissional. É póssível trocar de nacionalidade, mas envolve uma série de burocracias reguladas por rigor pela Fifa. Maurício, por exemplo, demorou cerca de oito meses para poder representar o Paraguai.
Durante a conversa com Natascha, ela relembrou à TMC que em 2019 tinha 22 anos e era uma peça recorrente da seleção da Suíça. Embora reserva, a jogadora era trabalhada para assumir a titularidade. Porém, pesou o chamado brasileiro.
“A escola de goleiros na Europa é muito forte, mas isso não influenciou. Em 2019, era novinha e as goleiras (da Suíça) tinham mais de 30 anos, então estava próximo de mudar o ciclo. Nunca foi pensado só em futebol. No meu caso teve muito coração, mas cada jogador tem uma situação”, explicou a jogadora do Palmeiras.
Paralelamente, a goleira explicou que jogar em um país mais competitivo ajuda a elevar o nível de todas as jogadoras e jogadores: “O país Brasil é muito grande, então a concorrência é muito grande. A Suíça tem o tamanho de São Paulo. Aqui no Brasil, temos que sempre manter o ritmo ou nos superar.”

Vale destacar que a própria Natascha não é peça inquestionável na Seleção Brasileira. Nesta quarta (25/03), por exemplo, o técnico Arthur Elias convocou 26 jogadoras para a disputa da FIFA Series e a palmeirense ficou fora. Foram chamadas Lorena, do Kansas City, dos Estados Unidos, Lelê, do Corinthians, e Thaís Lima, do Benfica, de Portugal.
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Em certa medida, Maurício passou por essa falta de espaço na Seleção Brasileira. O meia até foi chamado para os times Sub-20 e Sub-23 do Brasil, mas nunca foi chamado para o time principal. Agora no Paraguai, além de evoluir individualmente, o meia pode auxiliar o país de seus avôs. Gustavo Alfaro chegou a comentar como o jogador do Palmeiras pode ajudar seu time.
“No caso do Maurício, ele é um jogador que de repente nos dá essa capacidade de organizar o jogo que talvez o Paraguai não tenha, porque o Paraguai não tem organizador nato. Temos bons jogadores, mas não têm um que controle o ritmo da equipe”, disse o treinador em entrevista de imprensa.
Além de Maurício, o Paraguai também conta com Matías Galarza, Braian Ojeda, Damián Bobadilla, Alejandro Gamarra e Miguel Almirón para atuar no meio-campo.

(Foto: Joilson Marconne/CBF)
Claudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management, empresa de agenciamento de jogadores, em contato com a TMC, também destacou que mudar de seleção pode ajudar um atleta. “Faz sentido quando amplia oportunidades esportivas reais, seja em seleções com menos concorrência ou em mercados onde o atleta se encaixa melhor. A decisão precisa ser estratégica, não apenas emocional”, explicou, também apontando um cuidado que é preciso ter com o longo prazo.
“Eu destacaria o impacto a longo prazo: visibilidade, identidade, questões legais e portas que podem se abrir ou se fechar. É uma decisão que vai além do campo e precisa ser muito bem pensada”, finalizou.
Para a Copa do Mundo de 2026, o público deverá ver jogadores em situações similares à de Maurício. Na França, que bateu o Brasil no amistoso desta quinta (26/03), é comum essa transição de nacionalidades. O zagueiro Aymeric Laporte fez toda sua formação sob a Torre Eiffel e defendeu os times de base do país, mas deve ir ao Mundial vestindo a camisa da Espanha. Zinedine Zidane, principal jogador francês dos anos 2000, é filho de argelinos e poderia ter defendido o país africano.
Ganhos financeiros
Essa decisão esportiva e cultural costuma também trazer resultados esportivos. A TMC chegou a conversar com especialistas que destacaram como o status de “jogador(a) de seleção” rende bons frutos fora das quatro linhas.
Natascha reconheceu que ter essa alcunha auxiliou nos contratos que assinou.“No momento em que fiz a mudança de seleção, fui jogar na França. Antes já teve uma valorização, porque eles queriam que você fosse parte de uma seleção. Se você é jogadora de seleção, é visto de forma diferente. No Brasil, todo mundo olhava ‘caraca, é o Brasil’ por ser o país do futebol”, explicou. “Foi meu empresário quem passou que o Brasil tinha interesse. Ele sempre falou que era minha escolha e eu tinha que tomar a decisão.”
Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports, empresa de marketing esportivo, analisou essa situação contratual. “Ser atleta de seleção muda o patamar de mercado. Isso aumenta visibilidade, fortalece a marca pessoal e abre portas comerciais. Na prática, vira argumento em negociação com clubes e patrocinadores. Dependendo da seleção, o jogador passa a ter exposição em novos mercados, o que pode destravar contratos que ele não teria antes. Não é automático, mas é um diferencial competitivo claro”, avaliou à TMC.
“Existe um impacto de percepção, principalmente no Brasil, pela força da seleção. Pode haver uma leitura de que ele abriu mão do mais alto nível. Por outro lado, é uma decisão estratégica: em uma seleção com menos concorrência, ele aumenta chance de convocação, protagonismo e presença em competições relevantes. No fim, o prestígio está muito mais ligado ao desempenho e à exposição que ele gera do que ao peso da camisa em si”, analisou o especialista quanto ao caso de Maurício.
Se convencer, Maurício pode disputar a Copa do Mundo pelo Paraguai. A Albirroja está no Grupo D, ao lado de Estados Unidos, Austrália e um adversário da repescagem.




