O banqueiro Daniel Vorcaro teria mentido à SAF do Atlético Mineiro sobre a origem do investimento de R$ 300 milhões no clube, segundo notificação enviada ao banqueiro pelo clube obtida pelo site UOL.
A SAF do Atlético Mineiro notificou formalmente o dono do Banco Master em 21 de outubro de 2025. O documento exigiu esclarecimentos sobre a estrutura do fundo Galo Forte, usado pelo banqueiro para investir no clube.
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O prazo estabelecido foi de 48 horas para apresentação das informações. A cobrança aconteceu após o Atlético identificar divergências entre declarações de Vorcaro e registros na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O clube detectou contradições nas informações sobre o fundo de investimento, segundo o UOL. Quando consultado formalmente em janeiro de 2025, Vorcaro afirmou aos advogados do Atlético que era o único beneficiário do Galo Forte, detendo 100% das cotas. Um organograma da gestora Trustee respaldava essa informação.
Após o início da Operação Carbono Oculto, o clube recebeu informações de que outras pessoas possuíam participação no fundo. O informe quadrimestral do Galo Forte registrado na CVM apresentava composição diferente: uma pessoa física com 79,49% das cotas e outro fundo de investimento com 20,51%. A notificação questionou essa diferença entre o declarado ao Atlético e o registrado no órgão regulador.
A Lei das SAFs estabelece que acionistas com mais de 5% do capital devem informar ao clube a identidade do beneficiário final — a pessoa física responsável pelo investimento. O Atlético exerceu esse direito ao verificar as inconsistências.
A Polícia Federal investiga se o aporte foi realizado com recursos desviados do banco, em uma “confusão patrimonial”. O Ministério Público de São Paulo já investigava a estrutura de fundos na Operação Carbono Oculto, com suspeitas de que os fundos no topo da cadeia teriam ligação com esquemas de lavagem de dinheiro do PCC.
Leia mais: Quem é Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master, preso pela PF
Histórico dos aportes
O banqueiro investiu R$ 100 milhões no Atlético em 2023. No ano seguinte, aportou mais R$ 200 milhões. A consulta formal do clube aos advogados de Vorcaro sobre a composição do fundo ocorreu em janeiro de 2025.
Informações obtidas pela reportagem indicam que o Astralo 95 detinha 100% das cotas do Galo Forte FIP até novembro de 2024. A partir de dezembro de 2024, houve alteração: 80% das cotas foram transferidas para Daniel Vorcaro e 20% permaneceram com o Astralo 95.
O investimento total de R$ 300 milhões garantiu a Vorcaro 26,88% da Galo Holding S.A., empresa que detém 75% das ações da SAF atleticana. O aporte assegurou ao banqueiro assento no conselho de administração da SAF.
A SAF do Atlético Mineiro enviou a notificação e cobra esclarecimentos. A Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, administradora do fundo, é empresa investigada pela Polícia Federal.
O Galo Forte operava abaixo de uma cadeia de cinco fundos encadeados: Olaf 95, Hans 95, Alepo 95, Maia 95 e Astralo 95, todos geridos pela Reag Investimentos. Cada fundo era proprietário único do seguinte, até chegar ao Galo Forte.
O modelo utilizado é chamado de “fundo sobre fundo”. Sua característica principal é a capacidade de ocultar os reais beneficiários.
Na notificação de outubro, o Atlético exigiu, em 48 horas, o nome completo e a qualificação de todos os cotistas do Galo Forte. Caso houvesse outros fundos na cadeia, o clube determinou que queria saber sobre cada um deles, remontando toda a estrutura até chegar à pessoa física beneficiária final. O documento também exigia documentação comprobatória.
O registro da notificação indicava que, duas semanas antes, o Atlético havia feito pedido similar para atualização do cadastro na FIFA Clearing House. O clube não havia recebido resposta.
Falta de retorno
Não há informações sobre se Vorcaro respondeu à notificação dentro do prazo de 48 horas estabelecido pelo clube. Os nomes completos dos demais cotistas do fundo Galo Forte, caso existam, não foram divulgados.
A defesa de Vorcaro, quando procurada, informou que não iria se manifestar sobre o assunto. Procurada novamente, a defesa do banqueiro não respondeu aos questionamentos sobre a notificação do Atlético Mineiro e as exigências de transparência sobre a estrutura do fundo Galo Forte.
Declaração oficial
Procurado pelo UOL, o Atlético enviou nota afirmando que o Galo Forte Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia “é um veículo de investimento devidamente constituído e regular, com funcionamento em conformidade com a legislação vigente e registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM)”.
“O Clube não participa da gestão do fundo, tampouco tem ingerência sobre sua estrutura, cotistas ou operações financeiras.”
“O Atlético ressalta que todos os aportes realizados na SAF seguiram os procedimentos legais, contratuais e de governança aplicáveis, tendo como contraparte a Galo Holding e seus veículos de investimento, sem qualquer envolvimento do Clube em decisões ou movimentações de natureza bancária, financeira ou investigativa relacionadas a terceiros.”




