Companhias petrolíferas do Brasil têm perspectiva de elevar ganhos financeiros caso a cotação do barril de petróleo tipo Brent se mantenha em torno de 80 dólares. As ações de Petrobras, Prio, PetroRecôncavo e Brava subiram na segunda-feira (2/03).
A valorização aconteceu após bombardeios dos Estados Unidos e de Israel ao Irã – como resposta aos ataques, o governo iraniano bloqueou o importante Estreito de Ormuz.
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Executivos e analistas projetaram no início de 2026 que o barril ficaria em 60 dólares ou menos. A manutenção dos preços em níveis mais altos sugere que as empresas podem registrar receitas superiores às previsões iniciais.
Análise da XP Investimentos mostra que cada alta de 10 dólares no preço do barril de Brent aumenta o rendimento de fluxo de caixa livre para os acionistas. Petrobras e Prio têm incremento de 5 pontos percentuais. Brava registra elevação de 10 pontos percentuais. PetroRecôncavo apresenta aumento de 6 pontos percentuais.
Ganhos com exportação
Os papéis da Petrobras avançaram 4,58% na segunda-feira (2/03). O principal benefício para a estatal vem da valorização das cargas exportadas. Alto executivo da companhia informou que a produção diária alcança 2,5 milhões de barris.
A exportação líquida varia entre 450 mil e 500 mil barris por dia, descontando a importação de aproximadamente 300 mil barris diários de óleo bruto.
O ganho com a alta do Brent incide sobre esse volume exportado. A exportação não possui elasticidade. A companhia não pode ampliá-la para aumentar receitas.
A sustentação do Brent em patamares elevados reforça a tese de investimentos da estatal. A Petrobras estimou preço médio de 63 dólares por barril em 2023 e 70 dólares para os quatro anos seguintes. O mercado considerou essas projeções exageradas para justificar o planejamento de investimentos de capital do período 2026-2030.
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Política de preços de combustíveis
A Petrobras analisa os reflexos da conjuntura na política de preços para diesel e gasolina. Fontes da companhia indicam que decisões dependem da confirmação de mudança “mais estrutural” na cotação do petróleo e do comportamento cambial. A taxa de câmbio representa parâmetro relevante na definição do preço dos derivados.
A valorização do real nas últimas semanas poderia compensar o efeito da alta do petróleo sobre os preços internacionais dos combustíveis.
Alto executivo da companhia declarou à Agência iNFRA: “A Petrobras não vai repassar volatilidades externas para o consumidor final e, por enquanto, o cenário é de total incerteza”. A declaração indica ausência de inclinação para reajustar os combustíveis no momento. A fonte citou a última agressão dos Estados Unidos ao território iraniano, em junho, que provocou alta pontual na cotação da commodity sem exigir mudança nos preços dos derivados da Petrobras.
A XP Investimentos avalia que possível aumento no preço dos combustíveis da Petrobras, especialmente óleo diesel e gasolina, pode representar o principal impacto da crise geopolítica no Brasil. A análise do banco afirma: “Esperamos que os preços do diesel e da gasolina da Petrobras fiquem abaixo dos índices internacionais, embora um eventual aumento de preços esteja previsto”. Provavelmente reajustes da estatal se tornarão inevitáveis dentro de algumas semanas, caso os preços internacionais permaneçam elevados.
Impactos fiscais
O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, participou de evento organizado pelo jornal Valor Econômico na segunda-feira. Ceron declarou que há mais “fatores positivos” do que negativos para o Brasil no cenário atual.
O secretário destacou que o patamar de preços do barril de petróleo traz efeitos positivos para as contas públicas brasileiras. “Nesse patamar oscilando até 85 dólares [por barril], também há efeitos positivos do ponto de vista fiscal, não tenho como não dizer isso”, afirmou. Claro que é sempre ruim um cenário como esse, tem efeitos no crescimento global, tem repercussões indiretas, mas o Brasil está bem posicionado.
Ceron mencionou que os royalties de petróleo e os dividendos da Petrobras estão entre os impactos diretos positivos para o governo. Existe expectativa de que a previsão de arrecadação de 30 bilhões de dólares com leilões de áreas não contratadas seja alcançada com o Brent no patamar atual.
Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz é responsável pela passagem de navios carregados com uma fatia entre 15% e 20% da produção mundial de petróleo. A produção do Irã representa 2,9% da oferta global.
O canal é fundamental principalmente para a Arábia Saudita, que responde por 9,5% da oferta mundial. Iraque contribui com 3,9%, Emirados Árabes Unidos com 3,2% e Kuwait com 2,4%.
Quase todo o petróleo do Oriente Médio é embarcado no Golfo Pérsico. Atravessa o estreito e alcança o Mar Arábico. De lá segue principalmente para a Ásia e também para a Europa. Com o bloqueio dessa logística, a busca por cargas provocou disparada nos preços futuros.
A cotação do Brent para maio registrou avanço de 6,68% na segunda-feira (2/03), atingindo 77,74 dólares por barril. O preço permaneceu próximo aos 78 dólares durante toda a tarde. No início da sessão, chegou a alcançar 82 dólares, o maior nível registrado desde janeiro de 2025.
