O setor de infraestrutura e logística brasileiro enfrenta um grave déficit de trabalhadores qualificados, comprometendo a execução de projetos em andamento e futuros.
A Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base) prevê investimentos privados de R$ 43,3 bilhões em concessões e parcerias público-privadas para transportes e logística. O problema atinge diversos modais, incluindo rodovias, portos e aeroportos.
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A falta de profissionais capacitados foi identificada como um dos principais obstáculos ao crescimento das empresas do setor durante 2025. Os custos com pessoal aumentaram 6,35% no período acumulado, enquanto o índice geral do DNIT-R registrou queda na variação de doze meses até novembro passado.
Entre as categorias profissionais mais afetadas pela alta de custos estão armadores (7,29%), motoristas de caminhão e veículos especiais (7,04%), serventes (6,52%), operadores de equipamentos (5,86%) e ajudantes (4,22%).
FATORES QUE AGRAVAM A ESCASSEZ
O baixo índice de desemprego, a entrada de gerações mais escolarizadas no mercado e a concorrência com o setor informal contribuem para o agravamento do problema. As novas gerações demonstram menor interesse por funções braçais, preferindo outras áreas de atuação.
“Para algumas concessionárias, a questão da escassez, não só da mão de obra, mas também da cadeia de fornecedores de empresas de engenharia, começa a figurar entre os top 3 itens de preocupação”, afirmou Marco Aurélio de Barcelos, presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), em entrevista à Agência iNFRA.
Barcelos também destacou dificuldades específicas: “Tem sido desafiador recrutar mão de obra para a ponta”.
IMPACTO NOS INVESTIMENTOS FUTUROS
Os dados da Abdib mostram que os investimentos em concessões rodoviárias iniciarão trajetória ascendente em 2026, atingindo patamar elevado em aproximadamente dois anos, que se manterá por oito anos consecutivos.
“O que vamos exigir em termos de investimento, mobilização de capital, mobilização de mão de obra nos próximos oito anos seguidos é inédito. Isso vai rebalancear o mercado. Tem que ter condições de incrementar a oferta, porque, do contrário, vai reverberar em preço ou em óbice para que o investimento todo se torne realidade“, alertou Barcelos.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, observou que “A escassez de mão de obra continuará existindo com desemprego baixo, novas gerações entrando mais escolarizadas – e querendo exercer menos funções braçais – e salários que podem ser alcançados facilmente no mercado de trabalho informal, vide gig economy”.
GARGALOS ESPECÍFICOS POR SETOR
O problema foi listado entre os doze principais entraves do transporte no Brasil, conforme diagnóstico do Plano Nacional de Logística (PNL) 2050, em consulta pública até o dia 18 de janeiro.
“Pelo maior volume de carga transportada e menor capacidade de transporte por veículo, esse problema afeta com mais intensidade a operação de transporte rodoviário, mas também aparece com relevância no caso dos modos aquaviário e aeroviário”, aponta o documento.
No setor marítimo, estudo acompanhado pela Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac) projeta déficit de aproximadamente 720 Oficiais de Marinha Mercante (OMM) até 2030. A legislação brasileira exige que dois terços da tripulação seja composta por brasileiros, agravando o problema.
A formação desses profissionais é exclusividade da Marinha do Brasil, processo descrito no relatório como lento e com poucas vagas disponíveis, apesar dos “esforços” da autoridade marítima para aumentar a oferta.
“Sem as eólicas, ainda assim teríamos uma falta de cerca de 720 OMM, o suficiente para tripular (ou não) cerca de 50 embarcações. Isso poderia trazer um prejuízo incalculável para o setor e para as empresas de navegação”, alerta estudo do Centro de Inovação em Logística e Infraestrutura Portuária (Cilip) em parceria com a Fundação Vanzolini.
INICIATIVAS E SOLUÇÕES PROPOSTAS
O Ministério de Portos e Aeroportos planeja publicar neste semestre um edital em parceria com o Sest/Senat para oferecer 74 bolsas destinadas à formação de mecânicos de manutenção aeronáutica. O investimento estimado é de R$ 500 mil, por meio de contratação direta das vagas pela Secretaria de Aviação Civil.
No setor aéreo, o diagnóstico governamental aponta para a falta de gestores e operadores capacitados, principalmente em aeroportos municipais e regionais. As iniciativas da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) são consideradas insuficientes para atender à demanda atual.
“Esse gargalo de capital humano não se restringe apenas a profissionais operacionais, mas também envolve funções gerenciais e operacionais no contexto aeroportuário”, destaca o documento do PNL.
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Especialistas defendem uma mobilização ampla para resolver o problema. “O Crea (Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia), os sindicatos, as confederações precisam se engajar, mas o Estado também precisa se mobilizar, revisitar políticas”, afirmou Barcelos.
