A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em dezembro de 2025 criou um cenário de competição entre Brasil e Venezuela por investimentos no setor petrolífero. Na terça-feira (6), especialistas indicaram que os planos do governo Trump para recuperar a indústria petroleira venezuelana podem reduzir o fluxo de recursos para a Margem Equatorial brasileira, principalmente se a região continuar enfrentando barreiras ambientais.
Após a ação militar americana, o mercado aguarda a implementação de políticas econômicas favoráveis ao setor privado na Venezuela. Os EUA buscam novas fontes de petróleo para complementar sua produção doméstica, que se aproxima do limite, especialmente no gás de xisto.
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No curto prazo, o Brasil pode aumentar suas exportações para substituir parte das cargas venezuelanas bloqueadas desde dezembro, embora essa capacidade seja limitada pelas diferenças nos tipos de óleo. O petróleo venezuelano é pesado, enquanto o brasileiro é médio-leve ou leve.
A disputa ocorre entre a Margem Equatorial brasileira, que abrange áreas das bacias da Foz do Amazonas e outras regiões no norte do país, e os campos petrolíferos venezuelanos, que precisam de revitalização após anos sem investimentos adequados.
As ações de petroleiras americanas registraram alta em 5 de janeiro: Chevron subiu 6,29%, ExxonMobil 2,54% e ConocoPhillips 2,29%. Estas empresas são consideradas fortes candidatas a participar dos novos projetos na Venezuela. A Chevron é a única que mantém atividades no país atualmente.
Em 2025, um consórcio liderado pela Chevron e a chinesa CNPC investiu mais de R$ 350 milhões em bônus de assinatura por nove blocos na Bacia da Foz do Amazonas, superando ofertas da Petrobras. A estatal brasileira formou parceria com a ExxonMobil para adquirir dez blocos na mesma bacia.
A China recebeu 53% do óleo bruto da Petrobras no terceiro trimestre de 2024, o que representou 431 mil barris diários. O petróleo venezuelano apresenta um custo de viabilidade inferior a US$ 50 por barril, valor semelhante ao verificado no pré-sal brasileiro e ao esperado para a Margem Equatorial, que varia entre US$ 40 e US$ 50 por barril, dependendo do projeto.
A Venezuela possui mais de 300 bilhões de barris em reservas comprovadas, enquanto o Brasil conta com aproximadamente 16 bilhões. Empresas que saíram da Venezuela no passado buscam ressarcimento de aproximadamente US$ 160 bilhões.
Bruno Pascon, sócio-fundador da consultoria CBIE, afirma: “Trump deixou clara a intenção de restabelecer o ambiente [na Venezuela] para parcerias com petroleiras americanas e do resto do mundo, em regime de concessão ou partilha. A ideia é retomar os patamares de produção dos anos 1990. E isso é possível sim. Requer investimento e algum tempo, mas é muito mais rápido do que desenvolver projetos do zero. Se o Brasil demorar mais para produzir na Margem Equatorial, correrá o risco de perder investimento para a Venezuela, até porque o ‘break-even‘ de lá será tão ou mais competitivo que o da Margem”.
A retomada da produção venezuelana exigirá um período de estabilização política e econômica. Uma primeira aceleração da produção demoraria no mínimo dois anos, podendo chegar a seis ou oito anos para alguns projetos.
Roberto Ardenghy, presidente do IBP, questiona: “A Venezuela é muito ‘se’ em cima de ‘se’. Há sim uma diferença brutal no volume de reservas comprovadas na comparação com o Brasil [mais de 300 bilhões de barris em reserva, ante 16 bilhões de barris no Brasil] mas é um país repleto de instabilidades. As empresas saíram escorraçadas de lá. Até hoje buscam ressarcimento na Justiça [cerca de US$ 160 bilhões]. Se voltarem, o primeiro petróleo incremental vai ter esse caráter indenizatório. Os venezuelanos vão aceitar? As empresas vão correr esse risco?”
Ardenghy também destaca a vantagem brasileira: “Nós [Brasil] temos histórico de segurança jurídica, e isso vai pesar”.
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Isabela, analista da Stonex, compara os riscos: “Na Venezuela, o risco é puramente político. No Brasil, [Margem Equatorial] é um risco operacional, natural, além da burocracia, que afastou investidores nos últimos anos. Ainda assim, o Brasil é um terreno mais seguro e estável. E, caso as companhias americanas foquem na Venezuela, o Brasil ainda terá a Petrobras e petroleiras europeias bem estabelecidas aqui para investir”.
Eberaldo de Almeida, ex-presidente do IBP, aponta: “O problema é mesmo essa estabilização do ambiente político econômico, que pode durar mais de ano. Será preciso haver eleições auditadas, reconstrução do ambiente para que empresas produtoras e fornecedoras topem voltar, para que mão de obra especializada aceite trabalhar lá. Isso não é simples”.
Sobre a situação brasileira, Almeida alerta que o cenário pode ficar “mais complexo” e critica: “Perdemos mais de dez anos nessa indecisão sobre a Margem [Equatorial]. É aquela frase do Roberto Campos: o Brasil nunca perde uma oportunidade de perder oportunidades”.
