Há risco para humanos em câncer transmissível identificado em peixes?

Pesquisa publicada na revista Nature identificou uma linhagem de células cancerígenas que se transmite entre bagres

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Lago de ambiente natural com peixes coloridos
(Foto: boyarkinamarina/Magnific)

Uma pesquisa publicada na revista Nature, no fim de julho de 2026, revelou o primeiro caso conhecido de câncer transmissível em um peixe de água doce. O estudo identificou uma linhagem de células cancerígenas capaz de passar de um bagre para outro, comportamento considerado extremamente raro na natureza.

Ao contrário da maioria dos cânceres, que surgem a partir de mutações nas células do próprio organismo, o câncer transmissível funciona como um parasita. Nesse caso, as próprias células do tumor deixam um animal, sobrevivem no ambiente e se instalam em outro hospedeiro, onde continuam se multiplicando.

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A descoberta ocorreu durante uma investigação no Lago Memphremagog, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá. Pesquisadores da Universidade de Vermont observaram que diversos bagres-cabeçudos-marrons (Ameiurus nebulosus) apresentavam manchas pretas elevadas na pele.

Os exames confirmaram que os animais tinham melanoma, um tipo de câncer de pele. No entanto, a maior surpresa veio após o sequenciamento genético dos tumores. As células cancerígenas não possuíam o DNA dos peixes doentes, mas compartilhavam praticamente o mesmo material genético entre diferentes indivíduos.

Isso mostrou que todos os tumores pertenciam à mesma linhagem de células cancerígenas, originada há muito tempo em um único bagre e capaz de sobreviver ao ser transmitida entre outros peixes.

Como ocorre a transmissão?

O mecanismo exato ainda está sendo investigado, mas os cientistas acreditam que a própria biologia da espécie favoreça a disseminação.

Os bagres não possuem escamas, o que deixa a pele mais exposta. Além disso, vivem em contato constante com o lodo do fundo do lago e costumam se aglomerar durante o período de reprodução.

A hipótese é que células cancerígenas liberadas na água ou no sedimento consigam penetrar por pequenas lesões na pele, pelas guelras ou pela boca de outros peixes, iniciando um novo tumor.

Fenômeno é extremamente raro

Antes dessa descoberta, apenas três grupos de animais eram conhecidos por desenvolver cânceres transmissíveis:

  • Cães, que podem apresentar o tumor venéreo transmissível (TVTC), geralmente transmitido durante o acasalamento;
  • Demônios-da-Tasmânia, que sofrem com um tumor facial altamente agressivo disseminado por mordidas;
  • Moluscos bivalves, como mexilhões e amêijoas, que desenvolvem uma doença semelhante à leucemia transmissível.

O caso dos bagres é o primeiro registrado em um peixe e também em um ambiente de água doce.

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Há risco para humanos?

A resposta é não. Segundo os pesquisadores, não existe motivo para preocupação, já que o risco de uma pessoa adquirir um câncer transmissível de um animal é praticamente nulo.

Isso acontece porque o sistema imunológico humano reconhece rapidamente células de outro organismo como invasoras. Um dos principais mecanismos dessa defesa é o Complexo Principal de Histocompatibilidade (MHC), um conjunto de proteínas que funciona como uma espécie de “identificação” das células.

Quando uma célula apresenta um código genético diferente, o organismo a identifica como estranha e a destrói antes que consiga se multiplicar. Essa barreira torna praticamente impossível que um câncer de outra espécie consiga se estabelecer em humanos.

Câncer pode ser transmitido entre pessoas?

Sim, mas apenas em situações extremamente raras e específicas. A transmissão não ocorre pelo ar, pela saliva, pelo contato físico ou pelo convívio diário.

Os poucos casos registrados na medicina ocorreram em circunstâncias muito particulares, como:

  • Transplantes de órgãos, quando um doador possui um câncer ainda não detectado e o receptor utiliza medicamentos que reduzem drasticamente a resposta do sistema imunológico;
  • Transmissão de mãe para feto, em episódios muito raros envolvendo tumores agressivos, como melanoma ou leucemia;
  • Acidentes cirúrgicos, nos quais profissionais de saúde sofreram cortes durante procedimentos e tiveram contato direto com células tumorais, que posteriormente foram eliminadas pelo próprio organismo.

Uma exceção extremamente incomum

Há ainda um único caso documentado de transmissão de células cancerígenas de outra espécie para um ser humano.

Em 2015, médicos relataram o caso de um paciente na Colômbia com HIV não tratado, cujo sistema imunológico estava gravemente comprometido. O homem também estava infectado por uma tênia, que havia desenvolvido câncer. Nessas condições excepcionais, células cancerígenas do parasita conseguiram invadir o organismo do paciente.

Os especialistas destacam, porém, que esse episódio reforça justamente a importância do sistema imunológico. Em pessoas com defesas preservadas, qualquer célula externa — saudável ou cancerígena — é rapidamente reconhecida e eliminada, impedindo que um câncer transmissível se desenvolva.

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