O papel dos cães na sociedade moderna está passando por uma transformação profunda. Se antes eram vistos prioritariamente como animais de companhia, hoje muitos desempenham funções críticas de suporte à vida. Dois episódios recentes ilustram bem essa realidade: a Justiça do Rio de Janeiro condenou a companhia aérea TAP a pagar R$ 60 mil em danos morais após impedir o embarque de Teddy, um cão de assistência de uma menina autista; e, em São Paulo, um cachorro permaneceu 32 horas ao lado de um idoso com Alzheimer que se perdeu em uma mata, ajudando-o a retornar para casa.
Para entender a complexidade por trás desses animais, o médico veterinário e adestrador Bernardo Repsold, novo colunista do Link TMC, explica que o trabalho desses cães vai muito além do afeto.
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O cão como guia e suporte emocional
No caso do idoso com Alzheimer, Repsold observa que, embora o animal não fosse um cão de serviço formalmente treinado, o vínculo e o conhecimento do território foram determinantes. “O cachorro acaba trazendo um certo conforto para a pessoa, um certo bem-estar, e isso ajudou ele a voltar para casa, guiando-o com mais tranquilidade”, pontua.
Já em casos de autismo ou esquizofrenia, o animal atua como um “âncora” na realidade. Para um autista não verbal, o cão auxilia na regulação emocional; para quem sofre com alucinações, o latido do cão serve para validar se uma pessoa ou voz é real ou fruto de uma crise.
Como funciona o treinamento?
O treinamento de um cão de serviço é técnico e altamente personalizado. Segundo o especialista, o processo foca na identificação de “gatilhos” comportamentais ou fisiológicos.
“A pessoa muitas vezes emite algum gatilho, algum sinal que vai disparar a crise, e nós treinamos o cachorro para, quando observar esse sinal, já conseguir aparar a pessoa. Seja trazendo um medicamento, ficando perto ou apenas abraçando o dono para evitar uma crise de pânico”, explica Bernardo Repsold.
Em casos mais complexos, os cães são treinados para detectar alterações químicas no corpo humano: “O cachorro consegue identificar questões relacionadas à glicemia ou ao cheiro da pessoa, que muda quando ela está prestes a ter uma crise convulsiva, por exemplo. Fazemos o pareamento desse cheiro com a proximidade da crise para que o animal se movimente e assista o dono da melhor forma possível.”
As raças ideais
Embora o adestramento possa ser aplicado a diversos animais, algumas raças apresentam maior predisposição genética para o equilíbrio emocional necessário.
- Para auxílio e equilíbrio emocional: Golden Retriever, Labrador e Poodle são as opções mais comuns devido ao temperamento estável.
- Para guarda e proteção: Rottweiler e Dogue Alemão são raças mais indicadas por sua natureza vigilante.
Bernardo ressalta que o serviço de um cão de assistência deve ser sempre orientado por profissionais especializados. “Dentro da área do adestramento, existem muitos ramos. Estes são profissionais que tratam especificamente de cães de serviço para garantir que o trabalho seja muito bem feito”, finaliza.
Direito garantido
O episódio da condenação da companhia aérea reforça que o desconhecimento das normas não isenta as empresas de punição. Cães de assistência certificados possuem respaldo legal para acompanhar seus tutores em transportes e locais públicos, sendo considerados essenciais para a saúde e a dignidade de seus usuários.
