O Brasil voltou a ocupar um papel central na diplomacia sanitária internacional ao propor, na Organização Mundial da Saúde (OMS), uma regulamentação inédita para conter o avanço dos alimentos ultraprocessados entre crianças e adolescentes.
Ao liderar essa agenda, o país não apenas enfrenta um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI, mas retoma uma vocação histórica de protagonismo, reafirmando que nações em desenvolvimento podem ditar os termos da agenda global.
A proposta, que entra agora em uma fase de negociações que deve durar cerca de um ano, coloca o Brasil na linha de frente de um confronto direto com o poderoso lobby da indústria de alimentos.
O objetivo é claro e urgente: criar um consenso internacional que proteja a infância do acesso ilimitado a produtos associados a uma epidemia crescente de obesidade, que, em muitos casos, já se tornou um problema mais dramático do que a própria fome para as novas gerações.
Não é a primeira vez que o Brasil assume esse posto de vanguarda. Ao longo das últimas décadas, e independentemente das alternâncias de poder no Planalto, o país consolidou uma tradição de se apresentar como um interlocutor capaz de dialogar tanto com nações ricas quanto com países em desenvolvimento.
O exemplo do combate ao HIV, no qual o Brasil serviu de bússola para o mundo, ecoa agora nesta nova investida. O país demonstra que, mesmo em um mundo polarizado, é possível exercer o chamado soft power propondo normas que protegem a vida.
Esta movimentação em Genebra é um lembrete necessário de que a soberania brasileira não se manifesta apenas em acordos comerciais ou na política regional. Ela se traduz, fundamentalmente, na capacidade de influenciar normas globais que impactam diretamente a vida das pessoas.
Enfrentar a indústria de alimentos ultraprocessados será, sem dúvida, uma negociação dura. Haverá pressão e tentativas de bloqueio. Contudo, ao abraçar essa causa, o Brasil retoma o seu lugar de potência moral no xadrez global. Se queremos um mundo mais justo e saudável, precisamos de um Brasil que não se contente em assistir às mudanças, mas que tenha a coragem de ser o arquiteto delas.
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