O Departamento de Justiça dos Estados Unidos retirou a acusação de que Nicolás Maduro liderava o Cartel de Los Soles em uma versão revisada do documento judicial contra o ex-presidente venezuelano. A modificação ocorreu no sábado (03/01), coincidindo com a captura de Maduro durante operação militar americana em Caracas, capital da Venezuela. A alteração representa uma mudança significativa na postura do governo Trump em relação ao suposto envolvimento do líder venezuelano com o narcotráfico.
Na nova versão da acusação, Maduro não é mais caracterizado como “chefe de uma organização terrorista narcotraficante”, mas como alguém que ajuda a “participar, proteger e perpetuar uma cultura de corrupção de enriquecimento a partir do tráfico de drogas”.
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A revisão acontece após um período de crescentes tensões entre Washington e Caracas ao longo de 2025. Durante o ano passado, a administração Trump sustentou repetidamente que Maduro estava à frente do cartel venezuelano, posição que agora parece ter sido abandonada.
A operação militar americana resultou na prisão de Maduro e sua esposa, Cilia Flores, no último sábado (03/01) em Caracas.
A mudança na acusação também afeta a própria definição do Cartel de Los Soles. O grupo, que foi classificado como organização terrorista internacional pelo Departamento de Estado americano em novembro, é mencionado apenas duas vezes no documento atualizado.
No texto revisado, o Departamento de Justiça descreve o cartel de forma diferente: “O réu, Nicolás Maduro Moros — assim como o ex-presidente Chávez antes dele — participa, perpetua e protege uma cultura de corrupção na qual as elites poderosas da Venezuela se enriquecem por meio do tráfico de drogas e da proteção de seus parceiros traficantes. Os lucros dessa atividade ilegal fluem para oficiais civis, militares e de inteligência corruptos de diferentes níveis, que operam em um sistema de clientelismo comandado pelos que estão no topo — conhecido como Cartel de Los Soles ou Cartel do Sol, em referência ao símbolo do sol afixado nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente”.
A existência do Cartel de Los Soles como organização estruturada já era questionada por especialistas. Jeremy McDermott, cofundador e codiretor do InSight Crime, fundação dedicada ao estudo do crime organizado nas Américas, define o grupo como uma “rede de redes” que facilita o tráfico de drogas, composta por militares de várias patentes e diferentes níveis políticos da Venezuela.
McDermott, cujas pesquisas são reconhecidas por veículos como “The New York Times”, “The Washington Post” e “The Guardian”, afirma que este esquema existe desde antes da chegada de Hugo Chávez ao poder. O pesquisador ressalta que o Cartel de Los Soles não possui a estrutura centralizada típica de organizações como o Cartel de Sinaloa, liderado por “El Chapo” Guzmán, ou o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar.
Os motivos para a mudança na acusação formal contra o ex-presidente venezuelano não foram esclarecidos, assim como seus possíveis efeitos no processo judicial contra ele nos Estados Unidos.
