O último acordo de controle de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia, conhecido como New START, expirou na última quarta-feira (04/02). As duas maiores potências atômicas do mundo, agora, ficam sem restrições formais sobre arsenais nucleares pela primeira vez em décadas, após Washington e Moscou não chegarem a um novo entendimento para renovação do tratado.
O acordo estabelecia limites para o número de ogivas atômicas de cada país e previa mecanismos de verificação mútua por meio de inspeções e troca de informações sobre instalações nucleares. O tratado era considerado um pilar fundamental para o controle de armas desde o fim da Guerra Fria.
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, justificou a não renovação do tratado afirmando que busca estabelecer “um acordo melhor” que inclua também a China. O rápido crescimento do arsenal nuclear chinês tem sido apontado pela administração americana como principal motivo para abandonar o New START.
A China, em terceiro lugar no ranking mundial de potências nucleares com aproximadamente 600 ogivas, desenvolveu cerca de 100 novas ogivas apenas em 2023. Esse número, embora expressivo, continua muito distante dos arsenais russo e americano, com mais de 5 mil ogivas cada um.
Rússia líder
A Rússia lidera o ranking mundial com 5.459 ogivas nucleares, seguida pelos Estados Unidos com 5.177. O presidente russo Vladimir Putin propôs, em setembro de 2025, uma extensão do tratado por mais um ano. No entanto, a falta de resposta positiva dos Estados Unidos levou a uma mudança na postura de Moscou.
Durante visita a Pequim, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, declarou: “A falta de resposta também é uma resposta”. Segundo ele, Moscou está preparada para um cenário sem limitações aos arsenais nucleares.
O New START foi assinado em 2010 pelos então presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev, entrando em vigor no ano seguinte. Este acordo sucedeu tratados anteriores: o START 1, assinado em 1991 e implementado em 1994, e o START 2, definido em 1993, mas abandonado, posteriormente, devido a tensões entre os dois países no início dos anos 2000.
Preocupação da Europa
O impacto do fim do tratado se estende além dos territórios russo e americano. Na Europa, o encerramento do New START, combinado com os conflitos na Ucrânia, reacendeu debates sobre armamentos nucleares.
O chanceler alemão Friedrich Merz confirmou que iniciou conversas com França e Reino Unido sobre um possível sistema europeu de defesa nuclear, sinalizando preocupações do continente com o novo cenário estratégico.
Um dos aspectos mais preocupantes do fim do tratado é a suspensão dos mecanismos de verificação. O New START previa inspeções mútuas e troca de dados para evitar que um dos países interpretasse erroneamente as ações do outro e lançasse um ataque nuclear “acidentalmente”.
Esses mecanismos, contudo, já estavam comprometidos. As inspeções locais foram suspensas em 2020 devido à pandemia de Covid-19. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, Putin rejeitou vistorias e troca de informações com os EUA, que também interromperam o compartilhamento de dados com Moscou.
Posição da China
A China tem rejeitado propostas para participar de negociações trilaterais de controle nuclear, como sugerido por Trump. Existe a possibilidade de que a Rússia pressione pela inclusão de potências nucleares europeias, como França e Reino Unido, em futuras negociações semelhantes ao New START.
Alertas
Matt Korda, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos, advertiu: “Sem o tratado, cada lado ficará livre para acrescentar centenas de ogivas aos seus mísseis e bombardeiros pesados, praticamente dobrando o tamanho de seus arsenais existentes”.
A Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN) também expressou preocupação: “Embora os arsenais nucleares da Rússia e dos EUA, mesmo com os limites do New START, já representassem uma ameaça inaceitável para a humanidade, sem ele, o risco do uso de armas nucleares provavelmente aumentará, devido à possibilidade de uma corrida armamentista nuclear intensificada”.
