O embaixador cubano José R. Cabañas Rodríguez informou que o governo de Havana acompanha os deslocamentos das forças militares norte-americanas na região. A vigilância se intensificou depois que o presidente Donald Trump ameaçou “tomar Cuba”. Cabañas, que dirige o Centro de Investigações de Política Internacional (Cipi) em Havana, afirmou nesta segunda-feira (13/04) que profissionais cubanos analisam permanentemente os movimentos das tropas dos Estados Unidos.
O diretor do Cipi explicou que a ilha se preparou historicamente para a possibilidade de uma invasão. “Os que precisam analisar a iminência, ou não, da invasão fazem o seu trabalho, se estuda constantemente o movimento das forças militares, sabemos que a guerra hoje pode ser liberada à distância”, declarou Cabañas à Agência Brasil.
A Casa Branca intensificou o bloqueio econômico à ilha a partir do final de janeiro de 2026. Washington ameaçou sancionar países que comercializem petróleo com Havana. A medida fez Cuba ficar mais de três meses sem receber combustível.
Segundo o embaixador, a ameaça de ação militar dos Estados Unidos contra Cuba existe desde 1959, quando ocorreu o triunfo da Revolução. Ela reaparece quando Washington identifica momentos de fragilidade econômica que possam representar oportunidade de êxito.
“É uma possibilidade para a qual Cuba historicamente se preparou, e entendemos aqui que a chave para enfrentar tal situação é a unidade do povo“, afirmou. Cabañas citou a invasão da Praia Girón em 1961, operação apoiada pelos Estados Unidos e derrotada pelas forças leais a Fidel Castro.
Histórico de tensões militares
Cabañas representou Havana em Washington desde 2012. Ele foi o primeiro embaixador de Cuba nos Estados Unidos durante a administração de Barack Obama. O professor de relações internacionais recordou episódios em que a invasão de Cuba pareceu próxima de acontecer.
Ele mencionou a invasão norte-americana à ilha de Granada em 1983 e a invasão ao Panamá em 1989. “No ano de 1989, houve uma grande mobilização de forças militares nas proximidades de Cuba. Algumas pessoas pensavam que a invasão contra Cuba era iminente”, relatou.
O embaixador apontou que os Estados Unidos mantêm presença militar em território cubano desde 1903. “Porque a base naval ilegal em Guantánamo permanece ocupada, onde eles mantêm forças e recursos. Assim, várias gerações de cubanos cresceram e viveram suas vidas sob essa ameaça”, disse.
O diplomata avaliou que a quantidade de informações sobre possível invasão a Cuba representa tentativa de intimidar a população cubana. “Sabemos que as guerras atuais se lutam, de alguma maneira, usando a informação. Se trata de contaminar o país e a população que vão ser agredidos, para que as pessoas tenham medo, se desanimem. Lemos o que publica a imprensa corporativa estadunidense indicando nessa direção [da invasão]. Entendemos que se quer intoxicar a nossa população”, declarou.
Crise energética afeta saúde pública
A população da capital enfrentou apagões diários superiores a 12 horas. Municípios do interior do país ficaram sem energia elétrica durante dias inteiros. Cubanos residentes em Havana relatam que o país atravessa o “pior momento” devido às dificuldades enfrentadas pela população de 11 milhões de habitantes.
Na semana passada, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel denunciou às Nações Unidas o bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos. Ele classificou a medida como punição coletiva com objetivo de subjugar o povo cubano pela fome, doenças e escassez de bens de primeira necessidade.
Díaz-Canel apresentou dados sobre o impacto na saúde pública. “Mais de 96 mil cubanos, incluindo 11 mil crianças, aguardam cirurgias devido aos cortes de energia, apesar dos esforços das instituições de saúde para encontrar soluções”. Mais de 16 mil pacientes que necessitam de radioterapia e 2.888 que dependem de hemodiálise são afetados pela interrupção de serviços que exigem fornecimento estável de energia”, afirmou.
Um petroleiro russo transportou 100 mil toneladas métricas de petróleo bruto para Cuba no final de março, rompendo o bloqueio dos Estados Unidos. O governo cubano informou que a carga supriria um terço do consumo mensal do país.
Negociações e articulação política
Havana e Washington iniciaram negociações para estabelecer acordo que permita a Cuba importar petróleo. José Cabañas afirmou que Cuba já negociou com a Casa Branca em outras ocasiões. Ele ressaltou que o país não deve aceitar concessões que violem sua soberania nas tratativas com os Estados Unidos.
“Sempre negociamos com os EUA e com qualquer outro país a partir de uma posição de igualdade, respeito e reciprocidade”. E Cuba nunca, nem mesmo nas piores circunstâncias, considerou que precisasse fazer concessões para alcançar uma relação respeitosa com os EUA”, destacou.
Na semana passada, Díaz-Canel recebeu parlamentares do Partido Democrata dos Estados Unidos que são críticos ao bloqueio energético imposto por Trump. A deputada Pramila Jayapal defendeu a normalização das relações entre os dois países. “O embargo dos EUA contra Cuba é o mais longo da história mundial — e o bloqueio de combustível está causando uma crise humanitária ainda maior para o povo cubano”, comentou em uma rede social.
O embaixador José Cabañas Rodríguez afirmou que existe dentro dos Estados Unidos um movimento de solidariedade a Cuba que pode pressionar contra uma invasão. “É talvez uma grande contradição que, no país com uma política oficial agressiva contra Cuba, existe possivelmente um dos maiores movimentos de solidariedade que temos no exterior, e que está ativo”, ressaltou.
O presidente cubano concedeu entrevista exclusiva à emissora NBC News, publicada no domingo (12). Na entrevista, ele destacou a determinação do governo de resistir a qualquer ação militar contra o país. “Se isso acontecer [uma invasão], haverá combate, haverá luta. Nós nos defenderemos, e se tivermos que morrer, morreremos, porque como diz nosso hino nacional: ‘morrer pela pátria é viver'”, afirmou.
O embargo dos Estados Unidos contra Cuba já dura 66 anos. As primeiras medidas foram adotadas logo após a Revolução Cubana, de 1959.
*Por Agência Brasil




