O porta-voz militar iraniano Ebrahim Zolfaqari anunciou que o Irã manterá o conflito contra Estados Unidos e Israel até alcançar “a rendição e o arrependimento permanente do inimigo”. A declaração foi transmitida pela televisão estatal iraniana. Zolfaqari prometeu realizar “ataques devastadores” contra os dois países em resposta ao pronunciamento do presidente norte-americano Donald Trump desta quarta-feira (1º).
Zolfaqari emitiu um comunicado oficial nesta quinta-feira (02) afirmando: “Com a confiança em Deus Todo-Poderoso, esta guerra continuará até sua humilhação, desonra, arrependimento permanente e seguro, e rendição. (…) Aguardem nossos ataques mais devastadores, amplos e mais destrutivos”. O porta-voz das Forças Armadas iranianas respondeu diretamente às ameaças feitas por Trump em pronunciamento televisionado na Casa Branca.
Trump declarou na quarta-feira que os objetivos militares dos Estados Unidos contra o Irã estão próximos de serem alcançados. “Tenho o prazer de informar que esses objetivos estratégicos fundamentais estão quase concluídos. Nós vamos terminar o trabalho, e vamos terminar logo”, afirmou o presidente norte-americano.
O presidente dos EUA ameaçou bombardear a infraestrutura energética iraniana. Trump prometeu retornar o país “para a Idade da Pedra” com ofensivas mais fortes. “Vamos atacá-los com extrema força nas próximas duas ou três semanas. Vamos trazê-los de volta à Idade da Pedra, de onde vieram”, declarou. Trump condicionou a suspensão de ataques a usinas de eletricidade à existência de um acordo com o Irã.
Contexto do conflito no Oriente Médio
A escalada de declarações ocorre no contexto da Guerra do Irã. O conflito em andamento no Oriente Médio envolve Estados Unidos, Israel e Irã. Zolfaqari respondeu às ameaças de Trump afirmando que as avaliações dos EUA e de Israel sobre as capacidades militares do Irã eram “incompletas”.
Trump explicou que as metas estratégicas norte-americanas consistiam em destruir a capacidade de Teerã de realizar ataques contra os Estados Unidos. O presidente também citou o objetivo de impedir que o regime iraniano exercesse seu poder militar além de suas fronteiras. Trump negou que a mudança de regime fosse o objetivo da operação militar. O presidente norte-americano reconheceu que uma troca de liderança ocorreu com a morte dos antigos dirigentes iranianos. Segundo ele, a nova liderança do país é “menos radical e muito mais razoável”.
O conflito está em sua quinta semana. Antes do discurso do presidente norte-americano, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, havia divulgado uma carta endereçada ao povo americano. Trata-se da primeira comunicação direta do governo iraniano direcionada à população dos EUA desde o início do conflito.
Rejeição da guerra pela população norte-americana
Trump enfrenta resistência do eleitorado norte-americano em relação ao conflito. Uma pesquisa Reuters/Ipsos conduzida entre sexta-feira (27/03) e domingo (29/03) mostrou que 60% dos eleitores desaprovam a guerra. A mesma pesquisa indicou que 35% aprovam o conflito.
A sondagem revelou que 66% dos entrevistados afirmaram que os Estados Unidos deveriam trabalhar para encerrar rapidamente seu envolvimento no conflito. Essa posição prevalece mesmo que isso signifique não atingir as metas estabelecidas pelo governo. As pesquisas de opinião pública demonstram que a guerra é impopular, principalmente entre os eleitores independentes. Aliados de Trump têm solicitado que o governo apresente aos eleitores uma justificativa mais clara para o conflito.
Trump e seus assessores vêm oferecendo explicações e cronogramas variáveis para o conflito. A maioria dos cidadãos dos EUA se opõe à guerra. Muitos estão frustrados com o aumento dos preços da gasolina devido a interrupções no fornecimento global de petróleo.
Zolfaqari declarou que o Irã realizará “ataques pontuais” e que os executará “muito rapidamente”. Trump afirmou que os EUA sairiam do Irã “muito rapidamente”. O presidente acrescentou que as forças militares norte-americanas poderiam retornar para “ataques pontuais”, conforme necessário.
Disputa sobre o Estreito de Ormuz
Trump abordou o fechamento do Estreito de Ormuz. O corredor marítimo é importante para o escoamento do petróleo do Golfo Pérsico. O Irã bloqueou a passagem. O presidente norte-americano sugeriu que a reabertura do estreito interessa mais aos países europeus do que a Washington.
“Os Estados Unidos praticamente não importam petróleo pelo Estreito de Ormuz, e não vamos importar nada no futuro. Não precisamos disso. Os países do mundo que recebem riqueza pelo Estreito de Ormuz devem cuidar dessa passagem”, afirmou Trump.
O presidente americano instou outros países a tomarem medidas para reabrir o estreito. “Tenho uma sugestão. Primeiro, comprem petróleo dos Estados Unidos. Nós temos bastante. Temos muito. E segundo, criem um pouco de coragem, ainda que tardia. […] Vão até o estreito e simplesmente tomem conta dele, protejam-no e usem-o para vocês mesmos”, declarou.
Trump manifestou insatisfação com a OTAN pelo que considera a falta de apoio da aliança aos objetivos dos Estados Unidos no Irã. A tensão entre os Estados Unidos e seus aliados europeus na OTAN se intensificou durante o segundo mandato de Trump.
O racha transatlântico se aprofundou depois que os aliados europeus rejeitaram o pedido norte-americano para ajudar a manter a passagem segura do tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz. Questionado sobre a possibilidade de retirar os Estados Unidos da OTAN, Trump respondeu que estava “absolutamente” considerando essa opção. A organização militar é regida por um tratado ratificado pelo Senado norte-americano em 1949.
Pezeshkian divulgou uma carta “ao povo norte-americano” pela imprensa estatal iraniana antes do pronunciamento de Trump. No documento, o presidente iraniano afirmou que seu país não “nutre inimizade com as pessoas comuns dos Estados Unidos”. Pezeshkian declarou que o Irã não representa uma ameaça. O presidente iraniano acusou o governo de Donald Trump de enganar seus próprios cidadãos.
Pezeshkian pediu que os norte-americanos questionem “se Washington está realmente colocando os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar ou se está apenas agindo como um representante de Israel”. O presidente iraniano afirmou que Trump está disposto a lutar “até o último soldado americano”.
“O povo iraniano não nutre qualquer inimizade contra outras nações, incluindo os povos da América, da Europa ou dos países vizinhos”, diz a carta. “O que o Irã fez – e continua a fazer – é uma resposta ponderada, baseada na legítima defesa, e de forma alguma uma iniciação de guerra ou agressão”, afirma o texto.
A carta menciona que as hostilidades entre Irã e Ocidente começaram em 1953. O golpe de Estado depôs o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh. O episódio foi arquitetado pela CIA e pelo MI6, o serviço secreto inglês. Pezeshkian classificou o acontecimento como “uma intervenção ilegal dos Estados Unidos” que “interrompeu o processo democrático do Irã, reinstaurou a ditadura e semeou profunda desconfiança entre os iranianos em relação às políticas dos EUA”.




