O território iraniano concentra o maior volume de mortes e desaparecimentos de migrantes em rotas migratórias globais desde 2023. Dados compilados pela Organização Internacional de Imigração mostram 3.995 ocorrências no Irã até 16 de fevereiro de 2026. O total equivale a 15% de todos os casos mundiais registrados no período.
A OIM processou informações sobre 75.921 migrantes que tiveram óbito confirmado ou desapareceram durante trajetos migratórios no mundo. Segundo levantamento da Folha de São Paulo, que examinou esses registros compilados a partir de janeiro de 2014 até 16 de março, o Irã ultrapassou países tradicionalmente associados a crises migratórias, como Estados Unidos e Líbia, no número de casos recentes.
Porta-vozes da OIM explicam que as rotas de chegada e saída do Irã expõem imigrantes a uma combinação de riscos geográficos, ambientais e de proteção.
“Há condições ambientais extremas, especialmente em travessias montanhosas durante o inverno, trilhas longas e remotas com acesso limitado a serviços; violência e abuso; transporte perigoso e acidentes com veículos”, diz a organização.
O Irã contabilizou 5.786 casos nas rotas do Afeganistão ao país e do Irã à Turquia no período de 2014 até o presente. O número supera os Estados Unidos, onde foram registrados 5.123 mortes ou desaparecimentos na fronteira com o México. A Líbia permanece com o maior total histórico, alcançando 20.786 casos.
Os registros de mortes e desaparecimentos de migrantes no Irã apresentaram crescimento após a pandemia. Em 2022, o país registrou mais episódios que os Estados Unidos. A partir de 2023, o Irã também ultrapassou a Líbia em número de casos. O ano de 2024 marcou o pico na série histórica, com 1.508 ocorrências em solo iraniano.
Danny Zahreddine, professor do departamento de relações Internacionais da PUC Minas e autor do livro “O Oriente Médio: Velhos e Novos Conflitos”, atribui o aumento do fluxo migratório ao retorno do Talibã ao poder no Afeganistão e à saída dos EUA do país. A degradação da situação econômica do próprio Irã também é fator determinante.
“O Talibã endurece as regras sociais e culturais, restrições a bens, serviços, comida e trabalho. As mulheres vão se tornar cada vez mais marginalizadas e isso tem gerado nos últimos anos um fluxo cada vez maior de afegãos que deixam o país”, explica o professor.
Zahreddine acrescenta que esse cenário fez surgir no país criminosos que transportam migrantes de forma irregular e com desleixo à vida humana.
Os migrantes afegãos são os principais protagonistas desse fluxo migratório. A OIM informa que os movimentos de retorno de migrantes afegãos estão limitados por questões de segurança no Afeganistão e no Irã.
“Os principais padrões de mobilidade observados atualmente são predominantemente internos, motivados tanto por deslocamento forçado quanto por realocação preventiva”, afirma a OIM.
Quanto ao fluxo do Irã para a Turquia, Zahreddine, que coordena a Cátedra Sergio Vieira de Mello da PUC Minas, afirma que o movimento reflete a degradação econômica do Irã diante das sanções impostas pelos EUA, seca nos últimos dois anos, inflação e desemprego.
“A maior parte da migração que vai para a Turquia e também para o Iraque vai em busca de uma oportunidade melhor de trabalho”, diz o professor.
Os dados da OIM posicionam a rota do Afeganistão como a quinta com mais incidentes no mundo. Foram registrados 5.311 casos na série histórica. A rota do Mediterrâneo Central permanece como a mais mortífera, com 24,6 mil casos registrados na Líbia, Tunísia, Itália, Grécia, Egito, Malta e Argélia. Há 7.600 migrantes que morreram em rotas desconhecidas.
O elevado número líbio resulta principalmente da crise de refugiados provocada pela guerra civil na Síria. O país engloba a maior parte dos migrantes perdidos nas rotas do Mediterrâneo Central e pelo deserto do Saara.
O ano de 2024 registrou o pico de mortes e desaparecimentos no mundo, com quase 9.000 casos. Em 2025, foram contabilizados 7.550 registros, representando queda de 15% em relação ao ano anterior.
A OIM avalia que essa queda pode indicar tanto uma diminuição real no número de pessoas em rotas irregulares perigosas quanto atrasos na comunicação de dados e redução na capacidade de documentação dessas tragédias.
Os cortes orçamentários implementados durante o governo de Donald Trump afetaram a capacidade de monitoramento. “Restrições de financiamento e o aumento das limitações impostas aos atores humanitários que trabalham ao longo das principais rotas migratórias limitaram a capacidade de recolher e verificar dados de forma sistemática”, diz a OIM.
A OIM prevê aumento do fluxo migratório após os feriados religiosos no Irã neste mês de abril, especialmente diante da piora nas condições de vida no país.
A Organização Internacional de Imigração preside o Consórcio de Fronteira, que coordena a assistência de várias agências humanitárias. Nas fronteiras com o Irã, a entidade fornece assistência imediata a migrantes afegãos indocumentados vulneráveis. A ajuda inclui financiamento para transporte, refeições e cuidados de saúde.
A Folha analisou dados de mortes (quando o corpo foi localizado) e desaparecidos (pessoas que sumiram durante a rota migratória) compilados pela OIM. Os incidentes são classificados em uma escala de 1 a 5 com base nas fontes de informação. A reportagem descartou os incidentes classificados como nível 1 por serem baseados em apenas uma fonte de mídia, exceto em casos em que essa fonte estava relacionada à OIM ou ao Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).




