A Organização Mundial da Saúde precisou fazer um movimento raro nesta semana: tranquilizar o planeta antes mesmo que o medo tomasse proporções maiores. O surto de hantavírus registrado em um cruzeiro internacional, com mortes de passageiros europeus e rastreamento de viajantes em diversos países, rapidamente despertou memórias recentes demais para serem ignoradas.
Mas, segundo a OMS, não estamos diante de uma nova pandemia. O cenário, insistem os especialistas, é completamente diferente daquele vivido em 2020.
Ainda assim, é impossível observar a reação global sem perceber como a Covid-19 alterou permanentemente nossa relação com doenças infecciosas. O simples fato de um vírus raro surgir em um navio, atravessar fronteiras e mobilizar autoridades sanitárias europeias já é suficiente para acionar um estado coletivo de alerta. O trauma da pandemia transformou qualquer ameaça sanitária em potencial catástrofe internacional.
O caso do hantavírus reúne todos os elementos que alimentam esse imaginário contemporâneo: mortes em sequência, passageiros de dezenas de países, quarentena, investigação epidemiológica e um vírus pouco conhecido pelo público. Há também o simbolismo inevitável do cruzeiro marítimo, que desde a Covid passou a carregar uma memória quase automática de isolamento e descontrole sanitário.
Mas os fatos, até aqui, apontam para outra direção. O hantavírus possui uma forma de transmissão muito mais limitada. Diferentemente da Covid ou da influenza, ele não se espalha facilmente pelo ar em larga escala. A infecção ocorre principalmente pelo contato com partículas contaminadas por fezes e urina de ratos, e os raros casos de transmissão entre pessoas exigem contato próximo e prolongado. Isso reduz drasticamente o potencial de disseminação global.
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Ao mesmo tempo, a resposta rápida das autoridades mostra que o mundo aprendeu lições importantes. Hoje existe monitoramento internacional mais eficiente, protocolos sanitários mais claros e uma comunicação mais ágil entre governos e organismos multilaterais. O rastreamento dos passageiros e a preparação de quarentenas demonstram justamente essa nova capacidade de reação.
O problema talvez não esteja no vírus em si, mas na atmosfera psicológica criada após anos de medo coletivo. Vivemos em uma era em que o pânico circula com velocidade muito maior do que qualquer doença. E isso revela uma sociedade que, mesmo desejando voltar à normalidade, continua emocionalmente marcada pela experiência da pandemia.
O hantavírus provavelmente será contido. O medo global, ao que tudo indica, ainda não.
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