Por que a apuração das eleições no Peru demora tanto?

Disputa entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez segue sem definição; sistema baseado em cédulas de papel e milhares de contestações prolonga contagem dos votos

Por Redação TMC | Atualizado em
Funcionários do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) do Peru recebem dados enviados pelas províncias enquanto acompanham a votação e a continuidade da apuração do segundo turno presidencial entre a candidata conservadora Keiko Fujimori e o candidato de esquerda Roberto Sánchez
Funcionários do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) do Peru recebem dados enviados pelas províncias enquanto acompanham a votação e a continuidade da apuração do segundo turno presidencial entre a candidata conservadora Keiko Fujimori e o candidato de esquerda Roberto Sánchez (Leslie Moreno/Reuters)

Os peruanos foram às urnas no domingo (07/06) para escolher o próximo presidente do país, mas, dois dias depois, o resultado ainda permanecia indefinido. A disputa entre a candidata de direita Keiko Fujimori e o deputado de esquerda Roberto Sánchez reforça uma característica já conhecida do sistema eleitoral peruano: a lentidão na apuração dos votos.

O Peru tem histórico de eleições decididas por margens apertadas. Nas duas últimas disputas presidenciais, Keiko ficou em segundo lugar com menos de 50% dos votos válidos. Em 2026, o cenário voltou a se repetir. No primeiro turno, Sánchez avançou para a fase decisiva após superar o terceiro colocado, Rafael López-Aliaga, por pouco mais de 21 mil votos.

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A demora na divulgação dos resultados é resultado de uma combinação de fatores técnicos, geográficos e políticos. O principal deles é o uso predominante de cédulas de papel, diferentemente do modelo brasileiro baseado em urnas eletrônicas. Após o encerramento da votação, os votos precisam ser contados manualmente e registrados em atas eleitorais, um processo mais demorado e sujeito a erros de preenchimento.

Outro obstáculo é a extensa quantidade de atas contestadas pelos partidos políticos. Sempre que há divergências, rasuras ou inconsistências nos documentos, os fiscais podem pedir a revisão dos resultados. Essas atas são separadas da contagem inicial e encaminhadas para análise dos órgãos eleitorais, que decidem se os votos serão validados, anulados ou recontados.

No primeiro turno deste ano, mais de 68 mil atas foram questionadas, envolvendo cerca de 1 milhão de votos submetidos à revisão. Como a disputa presidencial atual deve ser definida por uma diferença reduzida de votos, a expectativa é de que novas contestações sejam apresentadas.

A geografia peruana também contribui para os atrasos. O transporte das urnas e documentos eleitorais de comunidades isoladas nos Andes e na Amazônia pode levar dias. Regiões como Cusco e Loreto registravam, nesta terça-feira (09/06), ritmo de apuração inferior à média nacional justamente por causa das dificuldades logísticas.

Além disso, os votos dos peruanos residentes no exterior costumam ser contabilizados mais lentamente. Embora a legislação permita modalidades digitais em alguns casos, a maior parte dos eleitores precisou comparecer presencialmente aos locais de votação. Depois disso, as urnas precisam ser enviadas ao Peru para que os votos sejam incluídos na contagem oficial.

Especialistas apontam ainda que a forte fragmentação política e o ambiente de desconfiança institucional vivido pelo país nos últimos anos aumentam a pressão por auditorias e recontagens. O resultado é um sistema que privilegia múltiplas etapas de verificação e recursos, mas que frequentemente leva semanas para confirmar o vencedor.

Por causa desses fatores, o Peru ganhou a reputação de ser o país da “apuração interminável”, com resultados eleitorais que muitas vezes só são oficializados após longos processos de revisão e validação.

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