Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, criou oficialmente o Conselho da Paz durante cerimônia realizada no Fórum Econômico de Davos. O lançamento ocorreu nesta quinta-feira (22/01) e foi marcado por críticas à Organização das Nações Unidas. O novo órgão atuará inicialmente na Faixa de Gaza, com convites estendidos a cerca de mais de 50 lideranças mundiais.
“Eu nunca nem falei com a ONU. Eles tinham um potencial tremendo”, afirmou Trump durante o evento, onde assinou o documento de criação do conselho. Apesar das críticas, o presidente americano mencionou que a nova entidade manterá diálogo “com muitos outros, incluindo a ONU”.
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A iniciativa está prevista na segunda fase do acordo mediado pelos EUA entre Israel e Hamas, assinado em outubro de 2025. O foco inicial será Gaza, que Trump descreve como território a ser “desmilitarizado e lidamente reconstruído”, com planos para expandir a atuação para outras regiões no futuro.
Estrutura e financiamento do conselho
Países interessados em obter assento permanente no conselho precisarão contribuir com US$ 1 bilhão (R$ 5,37 bilhões) no primeiro ano, conforme estatuto obtido pela Reuters. Esses recursos ficarão sob administração do presidente dos EUA, que ocupará a presidência do grupo com mandato vitalício.
“Cada Estado-membro cumprirá um mandato de no máximo três anos a partir da data de entrada em vigor desta Carta, renovável pelo presidente. Este mandato de três anos não se aplicará aos Estados-membros que contribuírem com mais de US$ 1 bilhão em dinheiro para o Conselho da Paz no primeiro ano“, estabelece o documento.
O estatuto menciona a necessidade de “um organismo internacional de consolidação da paz mais ágil e eficaz” e destaca a importância de ter “coragem de abandonar abordagens e instituições que falharam com demasiada frequência”, em referência indireta à ONU.
Países participantes e liderança
Até quarta-feira (21/01), 22 nações confirmaram participação, até o momento, incluindo Israel, Argentina, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Jordânia, Catar e Egito. O presidente argentino Javier Milei esteve presente na cerimônia e assinou o documento de formalização. Trinta e cinco países concordaram em participar do Conselho da Paz, dos mais de 50 convites enviados.
A Casa Branca divulgou na sexta-feira (16/01) os sete membros fundadores do conselho executivo, entre eles Marco Rubio, chefe da diplomacia americana; Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico; e Jared Kushner, genro de Trump. O major-general americano Jasper Jeffers foi nomeado para comandar a Força Internacional de Estabilização em Gaza.
Noruega, Suécia e Itália recusaram formalmente a participação. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, declarou que precisa de mais tempo para analisar a proposta.
Convite a Lula e dilema diplomático
O presidente brasileiro Lula está entre os convidados que ainda não responderam. Convidado no sábado (17/01), ele deve avaliar a proposta apenas na próxima semana, segundo fontes próximas. A situação é delicada para Lula, que tem criticado consistentemente as operações militares de Israel em Gaza desde o início do conflito em outubro de 2023.
Aceitar o convite poderia gerar questionamentos sobre sua coerência política, considerando sua defesa pública da criação de um Estado palestino. Por outro lado, recusar pode prejudicar a recente aproximação com o presidente americano.
Plano para Gaza e críticas ao modelo
O plano de paz divulgado pela Casa Branca em setembro contém 20 pontos e estabelece Gaza como zona livre de grupos armados. A região ficará sob comando de um governo transitório formado por um comitê palestino tecnocrático e apolítico, supervisionado pelo conselho.
De acordo com a Casa Branca, o conselho terá papel consultivo e “ajudará a apoiar uma governança eficaz e a prestação de serviços de alto nível que promovam a paz, a estabilidade e a prosperidade do povo de Gaza”. O comitê responsável pela administração provisória já iniciou seus trabalhos este mês no Cairo, liderado pelo ex-vice-ministro palestino Ali Shaath e outros 14 membros.
Uma questão fundamental permanece sem resposta clara: se os palestinos terão representação no Conselho da Paz. O professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, identifica falhas estruturais na proposta e alerta: “Há um temor real de que o Conselho se torne uma espécie de ONU paralela, controlada pelos Estados Unidos”.
