Está em voga falar sobre a honra das altas patentes da República. Diante disso, vale realizar uma reflexão histórica pontual. A ideia de honra está claramente ligada às antigas sociedades guerreiras. Sabe-se que, na Grécia Antiga, o conceito de honra era central no convívio social.
Segundo reza a lenda, um pai grego preferia ver seu filho morto, sendo carregado sobre o escudo por seus companheiros de exército, do que vê-lo retornar covarde, chorando com o capacete sob o braço. Isso significa que a honra era medida objetivamente no campo de batalha: consistia em enfrentar o inimigo sem medo de morrer. Se o soldado morria, tornava-se um herói; se sobrevivia à luta, tornava-se um herói vivo. Tratava-se de um fato objetivo em uma sociedade cuja ética se baseava na guerra e na coragem.
Ao mudarmos para uma sociedade como a nossa, que não é guerreira, o cenário se altera. Apesar da existência de conflitos, as guerras são vistas hoje como anomalias, inclusive do ponto de vista moral. O resultado disso é que, quando uma alta patente da República — atualmente, de forma mais visível, no campo do Judiciário — processa alguém, proíbe a atuação de um jornalista, retira sua conta de uma rede social, retira seu meio de sobrevivência ou tenta forçá-lo a entregar fontes com base na honra, o conceito se transforma.
Nesse contexto, em que a honra não é mais uma virtude visível, ela passa a servir de desculpa para a censura. O uso desse discurso gera autocensura por meio do medo. É questionável, em uma democracia, a impossibilidade de criticar membros das altas patentes da República. Esse cenário cria um viés delicado, no qual o profissional teme apurar, escrever ou revelar determinados assuntos, pois qualquer pessoa com poder pode processá-lo.
Como se sabe, o custo de enfrentar um processo judicial trabalhando em uma empresa de comunicação é altíssimo, não apenas financeiramente. Diante disso, o indivíduo acaba optando pelo silêncio. Portanto, o discurso da honra, no Brasil de hoje, apresenta-se como uma forma de censura.