Luiz Felipe Pondé
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Filósofo e autor de renome, Pondé provoca reflexões profundas sobre o comportamento humano, ética e sociedade. Em sua coluna "Sem Dó", ele disseca as contradições do mundo contemporâneo com sua ironia característica.

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A honra como virtude de guerra e o seu uso como instrumento de censura no Brasil atual

Está em voga falar sobre a honra das altas patentes da República. Diante disso, vale realizar uma reflexão histórica pontual. A ideia de honra está claramente ligada às antigas sociedades guerreiras. Sabe-se que, na Grécia Antiga, o conceito de honra era central no convívio social. Segundo reza a lenda, um pai grego preferia ver seu […]

Por Luiz Felipe Pondé | Atualizado em
Estátua na entrada do STF, em Brasília
(Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Está em voga falar sobre a honra das altas patentes da República. Diante disso, vale realizar uma reflexão histórica pontual. A ideia de honra está claramente ligada às antigas sociedades guerreiras. Sabe-se que, na Grécia Antiga, o conceito de honra era central no convívio social.

Segundo reza a lenda, um pai grego preferia ver seu filho morto, sendo carregado sobre o escudo por seus companheiros de exército, do que vê-lo retornar covarde, chorando com o capacete sob o braço. Isso significa que a honra era medida objetivamente no campo de batalha: consistia em enfrentar o inimigo sem medo de morrer. Se o soldado morria, tornava-se um herói; se sobrevivia à luta, tornava-se um herói vivo. Tratava-se de um fato objetivo em uma sociedade cuja ética se baseava na guerra e na coragem.

Ao mudarmos para uma sociedade como a nossa, que não é guerreira, o cenário se altera. Apesar da existência de conflitos, as guerras são vistas hoje como anomalias, inclusive do ponto de vista moral. O resultado disso é que, quando uma alta patente da República — atualmente, de forma mais visível, no campo do Judiciário — processa alguém, proíbe a atuação de um jornalista, retira sua conta de uma rede social, retira seu meio de sobrevivência ou tenta forçá-lo a entregar fontes com base na honra, o conceito se transforma.

Nesse contexto, em que a honra não é mais uma virtude visível, ela passa a servir de desculpa para a censura. O uso desse discurso gera autocensura por meio do medo. É questionável, em uma democracia, a impossibilidade de criticar membros das altas patentes da República. Esse cenário cria um viés delicado, no qual o profissional teme apurar, escrever ou revelar determinados assuntos, pois qualquer pessoa com poder pode processá-lo.

Como se sabe, o custo de enfrentar um processo judicial trabalhando em uma empresa de comunicação é altíssimo, não apenas financeiramente. Diante disso, o indivíduo acaba optando pelo silêncio. Portanto, o discurso da honra, no Brasil de hoje, apresenta-se como uma forma de censura.

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