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Joana Treptow
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Âncora de destaque no jornalismo nacional, Joana Treptow, com seu estilo espontâneo, traz uma visão humana e técnica sobre os fatos que moldam o cotidiano. Versátil e dinâmica, sua cobertura abrange desde grandes crises até tendências sociais e culturais.

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Por que ainda precisamos do Dia da Mulher? Não faltam flores. Faltam homens

Neste ano, os homens podem até dar flores e comprar presentes, mas podem também fazer algo um pouco mais útil do que isso

Por Joana Treptow | Atualizado em
Câmera Fotográfica Foto: Freepik

Para entendermos a origem do Dia da Mulher, precisamos voltar mais de um século na história. Aos poucos, começaram a surgir movimentos organizados de mulheres. Em 1908, em Nova York, um deles ganhou força.

Milhares de operárias foram às ruas exigir melhores condições de trabalho, redução da jornada, aumento de salário e direito ao voto. Não havia flores, nem chocolates, nem campanhas de marketing. Havia greve, mobilização e enfrentamento político.

Décadas depois, em 1975, a ONU oficializou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. O objetivo era claro: chamar atenção para a desigualdade de gênero e pressionar governos e sociedades a enfrentá-la. Era, portanto, uma data política.

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Em 2026, muita coisa mudou. Ainda bem. Podemos estudar, podemos decidir com quem queremos nos casar, podemos tomar anticoncepcional se não quisermos engravidar, podemos nos divorciar, podemos votar, podemos dirigir.

A muito custo, a sociedade foi abrindo portas para que pudéssemos ter carreiras bem-sucedidas, ocupar espaços que durante séculos foram exclusivamente masculinos. Mas nem tudo são flores – ou rosas vermelhas do dia 8 de março. Muita coisa continua igual no Brasil. Ou pior.

O Brasil é um dos países que mais mata mulheres no mundo. Em um período de dez anos, morrem no Brasil cerca de 50 mil mulheres vítimas de algum tipo de violência.

Imagine um ataque terrorista em um estádio do Maracanã lotado de mulheres – de todas as idades, de todos os cantos do país – e a maioria morre. Muitas sobreviveriam mutiladas. É isso que acontece, silenciosamente, a cada década por aqui. Os dados são do Atlas da Violência e do Sistema de Informações sobre Mortalidade.

E a tragédia não para aí. Também precisaríamos lotar outros estádios com as dezenas de milhares de casos de estupro e com as centenas de milhares de denúncias de violência doméstica registradas todos os anos. Talvez acabasse o futebol no Brasil por falta de estádios.

Mesmo diante desse cenário, todo 8 de março a cena se repete: marcas com ideias mirabolantes de propaganda, campanhas publicitárias exaltando a “força feminina”, promoções em produtos, empresas distribuindo brindes e mensagens motivacionais nas redes sociais.

Plantamos a semente de uma luta histórica e colhemos, décadas depois, uma flor de plástico. Uma celebração artificial e conveniente – perfeita para campanhas publicitárias, mas completamente desconectada da realidade de milhões de mulheres.

A pergunta que martela na minha cabeça é outra: o que é que tem sido feito para mudar, na prática, a vida das mulheres? Para, antes de qualquer coisa, garantir que não percamos a nossa vida. Em um país como o nosso, qualquer pessoa deveria saber que é preciso muito mais do que um dia para conscientizar.

É preciso falar quase diariamente sobre como ainda vivemos em uma engrenagem que nos espanca, violenta e silencia. E há milhares e milhares de mulheres comprometidas com essa luta. Elas estão na política defendendo legislação contra a violência doméstica. Estão nas universidades pesquisando desigualdade e violência. Estão no jornalismo denunciando abusos. Estão nas ruas organizando movimentos. Estão nas empresas pressionando por igualdade de oportunidades.

Mas, ainda assim, esse continua sendo tratado como um tema essencialmente feminino. Como se fosse um problema das mulheres. Não é. A violência contra mulheres não nasce das mulheres. É um problema produzido majoritariamente por homens. São homens que agridem, assediam, perseguem e matam. Por isso talvez esteja na hora de inverter um pouco a lógica do 8 de março.

Neste ano, os homens podem até dar flores, comprar presentes, levar para jantar, postar uma foto bonita com uma legenda sobre admiração e respeito. Mas podem também fazer algo um pouco mais útil do que isso.

Podem transformar a data em um ponto de partida para se engajar de verdade no assunto. Podem começar conversando com amigos que fazem piadas misóginas. Podem se posicionar quando veem uma mulher sendo desrespeitada no trabalho. Podem ensinar seus filhos que violência não é demonstração de poder. Podem parar de tratar a violência contra mulheres como um problema que diz respeito apenas às mulheres.

Talvez o Dia da Mulher tenha cumprido seu papel histórico. O que falta agora não são flores. São homens.

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