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Facções mandam mais que o Estado? Pimentel explica o ‘país paralelo’ dentro do Brasil

Ex-capitão do BOPE diz que facções já controlam territórios, agem como grupos terroristas e lucram de gás a internet, enquanto o debate político segue preso à polarização

As facções criminosas já ocupam o lugar do Estado em pedaços inteiros do mapa brasileiro, impondo leis próprias, cobrando impostos clandestinos e decidindo quem entra, quem sai e quem vive com medo. Em entrevista ao programa Em3Atos, da TMC, o ex-capitão do BOPE Rodrigo Pimentel, inspiração do Capitão Nascimento de “Tropa de Elite”, afirma que o crime organizado virou um “país dentro do Brasil” e que boa parte da população desses territórios não tem mais acesso real à democracia, justiça ou serviços básicos.

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Quando o crime manda mais que a Constituição

Pimentel descreve um cenário em que as barricadas não são só obstáculo para caveirão, mas fronteiras reais: atrás delas, caminhão de lixo, ambulância e poder público simplesmente não entram. Nesse “feudo” moderno, facções e milícias cobram taxa do comerciante, do morador, da tia do café no ponto de ônibus e até da menina que vende bala na porta da favela. O resultado é um regime de extorsão permanente, em que o pequeno empreendedor de periferia paga imposto oficial de dia e “imposto do crime” à noite.

A lógica, segundo ele, já ultrapassou o modelo clássico de tráfico de drogas e venda de armas. Hoje, facções controlam botijão de gás superfaturado, cigarro paraguaio, internet pirata, bebida adulterada e até construção e aluguel de imóveis em áreas populares. Quando o morador paga mais caro pelo gás ou aceita a “internet da facção”, financia o próximo fuzil sem nem sempre perceber. Em alguns conjuntos do Minha Casa Minha Vida, gente foi simplesmente expulsa de casa para dar lugar ao negócio do crime, como em episódios relatados na Bahia, no Ceará e no Rio de Janeiro.

Leia mais: Hélio Luz revisita origem da polícia e questiona eficácia das políticas de segurança

Do ônibus queimado ao carimbo de “terrorismo”

Para Pimentel, esse poder territorial se aproxima perigosamente da lógica terrorista. Fechar uma cidade por horas, queimar dezenas de ônibus, bloquear o direito de ir e vir e espalhar pânico sem objetivo de roubo, mas para dobrar o Estado, seria enquadrado como terrorismo em vários países — menos no Brasil, diz ele. O ex-capitão defende que facções como PCC, Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando sejam tratadas juridicamente como grupos terroristas, o que abriria cooperação internacional quase imediata com agências de segurança de outros países, sem tanta burocracia.

Ao mesmo tempo, ele lembra que o crime brasileiro já opera em escala global: exporta cocaína para Europa e Oceania, movimenta bilhões com contrabando e até provoca impacto ambiental em garimpos ilegais na Amazônia. Operações como a Operação Carbono, que miram a lavagem de dinheiro do PCC em postos de gasolina, usinas e fundos de investimento, são vistas por Pimentel como golaços importantes, mas ainda isolados num jogo em que o “time do crime” joga com vantagem.

Nordeste em chamas, indicadores confusos

Enquanto a taxa de homicídios cai em boa parte do país desde 2016, o Nordeste virou o novo epicentro da violência letal, mesmo com avanços sociais em estados como Bahia e Ceará. Para Pimentel, isso não é contradição, é estágio: as facções chegaram “pesado” à região nos últimos anos, reproduzindo a disputa territorial que o Rio viveu nas décadas de 1980 e 1990. A diferença é que agora o pacote já vem completo: drogas, armas, gás, cigarro, internet, imóveis e cobrança de taxa até do vendedor de churrasquinho.

Ele aponta ainda que a percepção de violência do brasileiro médio se descolou do número de homicídios e passou a se concentrar em assaltos, roubos de celular, latrocínios e no medo diário no transporte e na rua. Por isso, insiste que governadores deveriam acompanhar com lupa indicadores como roubo de rua, extorsão e latrocínio, e não só a curva do homicídio. Sem isso, diz, o discurso de “melhora nos números” não conversa com quem encara arma na cabeça no ponto de ônibus.

Leia mais: Migração de criminosos ligados ao CV e ao PCC pelo Brasil preocupa autoridades

Estado travado, política em modo “treta eterna”

Na análise de Pimentel, decisões como a ADPF-65 — que, na prática, encheram de obstáculos as operações policiais em favelas — ajudaram a imobilizar forças de segurança em momentos-chave, permitindo o avanço das barricadas e do domínio territorial. Ao mesmo tempo, ele não compra o pacote completo de “lei e ordem” da direita nem o discurso de que tudo se resolve só com políticas sociais da esquerda. Para ele, sem repressão qualificada e sem investimento pesado em oportunidades para a juventude, qualquer plano de segurança pública nasce capenga.

O ex-capitão critica o que chama de “burrice da polarização”: enquanto direita e esquerda brigam por narrativa, projetos como a PEC da blindagem acabam protegendo políticos suspeitos de ligação com milícia e facção. Pimentel acredita que um “fenômeno à la Bukele” pode surgir justamente em estados do Nordeste, pressionados por índices explosivos de violência, se a classe política continuar sem oferecer respostas concretas. A saída, reforça, passa por tratar facções como ameaça à soberania nacional, seguir o dinheiro do crime, endurecer contra extorsão e, ao mesmo tempo, investir em escola, lazer e trabalho nas quebradas — juntando o que há de melhor nas propostas de ambos os lados, em vez de viver eternamente em guerra de torcida organizada.

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