Anatomia da fraude: Pesquisadores identificam sala onde ditadura simulou suicídio de Vladimir Herzog

O prédio passou por modificações na década de 1980 para receber o Instituto de Criminalística; As alterações mudaram parte das estruturas originais

Por Redação TMC | Atualizado em
A ditadura divulgou a imagem forjada no mesmo dia do assassinato (Crédito: Sinvaldo Leung Vieira)

Historiadores, arqueólogos e arquitetos da Universidade Federal de São Paulo identificaram o local exato onde a ditadura militar brasileira montou a encenação da morte do jornalista Vladimir Herzog. O ambiente fica no antigo prédio do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, na região central de São Paulo. A descoberta ocorreu nesta segunda-feira (30/03) e encerra um mistério que persistia há mais de cinco décadas.

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Herzog dirigia o departamento de jornalismo da TV Cultura quando foi convocado para prestar depoimento. Ele se apresentou na manhã de 25 de outubro de 1975 e foi assassinado no local, conforme informações do Fantástico.

Análise física e documental revelou ambiente da farsa

A equipe examinou paredes, pisos e tetos do edifício. Os especialistas cruzaram essas informações com documentos históricos e fotografias da época para determinar onde foi produzida a imagem que mostrava o corpo do jornalista pendurado.

Durante as escavações, os pesquisadores encontraram marcas feitas por um prisioneiro para contabilizar dias de cárcere. Os registros estavam ocultos sob camadas de tinta e azulejo. Um som oco detectado em uma parede revelou um espaço oculto, o que conduziu à identificação do ambiente onde a farsa foi produzida.

“Trazer luz para esse acontecimento é dar voz também a outras tantas pessoas que também foram presas, torturadas, sequestradas e tiveram seus direitos violados aqui nesse edifício”, afirmou Deborah Neves, coordenadora do grupo de trabalho do Memorial DOI-Codi.

O prédio passou por modificações na década de 1980 para receber o Instituto de Criminalística. As alterações mudaram parte das estruturas originais.

“Alguns elementos já indicam isso, como esses balcões revestidos com azulejo e o piso vinílico, a cobertura com esse piso vinílico são alterações produzidas provavelmente a partir do ano de 1985“, disse Deborah Neves.

Elementos estruturais permaneceram intactos, possibilitando a comparação com as imagens históricas.

Detalhes físicos confirmam localização

Os pesquisadores compararam detalhes da fotografia com o espaço físico localizado. A imagem histórica mostra que o piso era de tacos, posteriormente coberto por outro tipo de revestimento. A janela tinha blocos de vidro e uma grade metálica.

Remendos na parede coincidem com os pontos onde a grade estava fixada. Uma irregularidade na parede abaixo da janela, visível na foto original, permanece no local. Vestígios da caixa de ferrolho foram encontrados ao lado da porta. As dobradiças originais da porta não foram substituídas durante a reforma.

Uma segunda fotografia, presente no laudo da morte do policial militar José Ferreira de Almeida, também ocorrida em 1975 na mesma sala, reforçou a identificação. Nessa imagem aparece um retângulo ao lado da porta, onde ficava a caixa do ferrolho, removida durante a reforma. Os pesquisadores encontraram um buraco compatível com essa estrutura no local indicado.

“Claramente não é uma cena de suicídio, e sim uma cena que foi forjada para ocultar uma morte que aconteceu em decorrência das torturas”, afirmou Deborah Neves.

O arquiteto responsável pelo estudo declarou: “Considerando as informações documentais e cruzando com essas análises físicas, eu considero suficiente a comprovação da hipótese de que a encenação foi feita nessa sala”.

Conhecidos recomendaram que Herzog não comparecesse ao local.

“Algumas pessoas inclusive orientaram ele, recomendaram: ‘Não vai, a ditadura tá pegando’. Ele disse pra Clarice: ‘Fica tranquila, não tem por que eles, é.., me prenderem ou fazer qualquer maldade comigo’“, relatou Rogério Sottili, diretor do Instituto Vladimir Herzog.

A ditadura divulgou a imagem forjada no mesmo dia do assassinato.

Ivan Seixas foi levado ao DOI-Codi aos 16 anos, junto com o pai, que foi morto após dois dias de tortura. Seixas relatou agressões já na chegada ao prédio e descreveu a violência dentro do espaço. Ele foi transferido para o DOPS, outro órgão de repressão em São Paulo.

Uma ação do Ministério Público de São Paulo pede a criação de um centro de memória no local desde 2021. O prédio é tombado, mas ainda é utilizado como estacionamento de viaturas policiais.

“As pessoas têm que saber disso, têm que ter o direito de visitar aquele lugar”, afirmou o procurador-geral Plínio Gentil.

Pesquisadores e o Instituto Vladimir Herzog defendem que o DOI-Codi seja transformado em um espaço de memória.

A Secretaria de Cultura do estado disse que São Paulo já conta com o Memorial da Resistência, dedicado à preservação da memória das violações de direitos humanos no período. O prédio do DOPS hoje abriga o Memorial da Resistência, que preserva a memória das violações de direitos humanos durante o regime militar brasileiro.

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